Jornalismo Literário na Veia

    Aqui, narrativas produzidas por alunos e ex alunos deste Curso de Pós-Graduação em JL, assim como notícias de seus projetos e iniciativas editoriais.  Também conteúdos extras de interesse do campo do JL.

    “Nem Sapo Muito Menos Príncipe” – Entrevista na Rádio Jovem Pan

    Em entrevista ao programa “Radioatividade”,  apresentado por Madeleine Lacsko e Carlo Aros na Rádio Jovem Pan AM de São Paulo, dia 01 de julho de 2016, Edvaldo Pereira Lima e o dr. João Borzino falam do livro  Nem Sapo Muito Menos Príncipe, assinado por ambos, publicado pela plataforma editorial  Clube de Autores. Uma conversa envolvente de um tema pouco discutido abertamente em público.

    Nas Margens

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    Auris Sousa

    Jornalista, pós-graduanda no Curso de Pós-Graduação em JL, epl, turma 2015. Trabalha na redação do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região e é repórter freelancer. Acredita no jornalismo literário como ferramenta de transformação social.
    auris_sousa@hotmail.com

    Agnes Karoline é feito água que corre. Escava as terras por onde passa para formar leito. Tem momentos que corre por meio de terrenos mais duros, compostos de rochas. Mas nem por isso seca. A cada curva se renova, e fortalece suas margens.

    JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 1 Foto 1         

    O frio e o calor, o sol e as nuvens oscilam em Osasco. É 29 de maio de 2015, uma sexta-feira, “Dia Nacional de Lutas e Manifestações” contra a ampliação da terceirização, em tramitação no Congresso, e o ajuste fiscal, mecanismo adotado pelo governo federal para cortar gastos e elevar a arrecadação. Na cidade do cachorro quente, sindicatos ligados as centrais sindicais e o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), que também reivindica o início da terceira fase do programa Minha Casa, Minha Vida, participam do ato.

    Nas Margens

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    Auris Sousa

    Identidade Fortalecida

    É maio de 2014, Agnes se inunda de esperança, de força. É noite, uma nova ocupação começa a nascer num terreno em Itaquera, a Copa do Povo. As marteladas soam como se fossem o início de uma história, e os sem-teto trabalham como formigas para que no dia seguinte o terreno já esteja com um novo visual. As ocupações são as escolas da revolução. Natalia – uma das coordenadoras do MTS – tem razão. Só então, entende o “que é Marx, o que é luta de classes”.

    JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 2 Foto 1

    Enquanto a luta de classes e Karl Marx não saem de sua cabeça, as mãos entram em conflito com a pá e a enxada. Finca as madeiras na terra, estende a lona. De repente tudo desmorona. Recebe ajuda. “A ocupação é uma zona autônoma que problematiza a sociedade, mas não problematiza com textos, livros, nada disso, problematiza com a prática da ocupação. O primeiro momento é a desconstrução de várias coisas, inclusive de uma subjetividade que é aquela subjetividade do indivíduo que luta sozinho, que come sozinho, que tem que pagar as contas sozinho. Desconstrói a consciência do sujeito construída pelo capitalismo”, explica.

    Nas Margens

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    Auris Sousa

    Se o governo não faz, o povo faz

    São quase 18h, o céu já começa a escurecer. Agnes chega à concentração para o ato. Com um sorriso no rosto, mochila nas costas, ela anda para todos os lados da praça, fala com as pessoas. Bem no centro, um rapaz negro estende uma faixa vermelha, que leva o rosto de Carlos Marighella, seu nome, o logo do MTST, e a frase “Não temos tempo para ter medo”. Agnes grita: “MTST”. Os demais completam: “a luta é pra valer” e rodeiam a jovem coordenadora. Um pouco rouca e sem microfone, ela propõe que todos repitam os seus dizeres. De forma sincronizada, o seu pedido é atendido e o recado é passado: “Hoje a ocupação Carlos Marighella. Hoje a ocupação Carlos Marighella. Vai sair em ato da Praça Central e vai até a Câmara. Vai sair em ato da Praça Central e vai até a Câmara”.

    JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 3 Foto 1

    Nas Margens

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    Auris Sousa

    Ana Julia

    JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 4 Foto 1

    Ana Julia brinca, corre. Está completamente solta pela ocupação, como um pipa que colore o céu. Parece feliz. Agnes se preocupa.   
    – Será? Será que você pode ficar brincando assim?   
    – Mãe tem um monte de gente por aqui que está cuidando de mim. “Deu uma sensação assim de ter um espaço onde tem segurança, onde cabe a minha filha, onde cabem as minhas questões”. A menina, de sete anos, parece ser a única a abalar as estruturas de Agnes, que às vezes perde as palavras quando o assunto é a filha.

    Nas Margens

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    Auris Sousa

    “É uma resistência o tempo todo”

    JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 5 Foto 1

    Viver nas margens não é fácil, a exclusão chega de todas as formas. “Fui conhecer a Paulista aos 18 anos. O acesso que a gente tem da cidade é muito restrita e exclusora”.

    Agnes teve alguns professores que a auxiliaram em seu processo de maturidade, principalmente política. Mas foi no Jade (Jovens Agentes pelo Direito à Educação) da ação educativa que seu olhar se ampliou. Foi lá que seu conhecimento saiu das profundezas e ela passou a enxergar um mundo de esperanças, de oportunidades. “Nele, soube que existem direitos, que existem direitos humanos. Fiquei sabendo que a USP existe e outras universidades públicas. Fiquei sabendo que era possível ir para a universidade, ainda mais sem precisar pagar”.

    A voz dos mortos

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    Diego Moura

    Jornalista formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduando no Curso de Pós-Graduação em JL, epl, turma 2015. Atua como repórter no jornal O Estado de S. Paulo e se interessa pelas boas histórias das múltiplas gentes.

    disimoura@gmail.com

    A voz dos mortos | Jornalismo Literário

    Ventos de quase 100 quilômetros por hora varreram a Baixada Santista na última quinta-feira de agosto e não pouparam nem o descanso dos mortos. Por todo o Cemitério da Areia Branca, em Santos, os pequenos vasos de flores artificiais colocados pelas famílias, boa parte deles no último dia dos pais, rolavam aqui e ali no chão de cimento cru por entre as gavetas dos túmulos.

    A voz dos mortos

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    Diego Moura

    Muitos mortos

    Jornalismo Literário 2015 Texto Diego Moura Capítulo 2 Foto 1

    A rotina de Débora Maria da Silva se tornou um constante enterrar mortos. Os seus e os dos outros. Mas ela nunca se acostumou à tarefa. Prova disso é o Movimento Mães de Maio, quando correu atrás de mães, inicialmente de Santos, depois de outras cidades do Brasil, e começou uma andança atrás de justiça. Para tentar compreender a vida dessa pernambucana radicada em São Paulo temos de recuar nove anos, até chegarmos em maio de 2006, quando em uma semana mais de 500 pessoas foram assassinadas.

    A voz dos mortos

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    Diego Moura

    Começo do pesadelo

    Jornalismo Literário 2015 Texto Site Diego Moura Capítulo 3 Foto 1

    Em meio às notícias dos crimes, o telefone tocou. Do outro lado da linha, um policial militar aparentado com Débora pediu para que ela fosse até o local onde mataram vários rapazes e verificasse se o nome dele "estava rolando por lá" como um dos assassinos. No cenário desolador, de vários mortos, ela achou até um conhecido. Meio-dia. No caminho de volta, descobriu que um toque de recolher fora imposto. Voltou para casa. Abriu o portão. Entrou. Saiu. Fechou o portão. Correu. Chegou na creche. Pegou o neto. Voltou.

    Lembrou de retornar a ligação para o policial. O nome dele "não estava rolando", mas ela disse que sim. Queria saber a história toda. Ele alertou:

    -      Avisa pras pessoas de bem não ficarem na rua. Lixo, não. Lixo deixa com a gente. Quem tiver na rua é inimigo da polícia. O aço vai comer.

    Menos de uma hora depois os telefones ficaram mudos e Débora não conseguia notícias do filho Rogério. Nem pelo celular conseguia contato. Na noite anterior, ele havia dito que se "acordasse com o corpo quente" ia trabalhar. A agonia só crescia.

    -      Eu entrava e saia pra dentro de casa...e eu sentia um cheiro de carne com sangue. E nada de falar com meu filho. Aquela agonia, agonia, agonia.

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