Nas Margens

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Auris Sousa

Jornalista, pós-graduanda no Curso de Pós-Graduação em JL, epl, turma 2015. Trabalha na redação do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região e é repórter freelancer. Acredita no jornalismo literário como ferramenta de transformação social.
auris_sousa@hotmail.com

Agnes Karoline é feito água que corre. Escava as terras por onde passa para formar leito. Tem momentos que corre por meio de terrenos mais duros, compostos de rochas. Mas nem por isso seca. A cada curva se renova, e fortalece suas margens.

JL2015 Texto Site Auris Sousa Capítulo 1 Foto 1         

O frio e o calor, o sol e as nuvens oscilam em Osasco. É 29 de maio de 2015, uma sexta-feira, “Dia Nacional de Lutas e Manifestações” contra a ampliação da terceirização, em tramitação no Congresso, e o ajuste fiscal, mecanismo adotado pelo governo federal para cortar gastos e elevar a arrecadação. Na cidade do cachorro quente, sindicatos ligados as centrais sindicais e o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), que também reivindica o início da terceira fase do programa Minha Casa, Minha Vida, participam do ato.

Franzina. Olhar desconfiado, e profundo. Agnes usa um curtíssimo rabo de cavalo, veste calça legging preta, e uma malha roxa, com flores coloridas, desbotada com as indesejáveis bolinhas brancas. Em cima do caminhão de som, sua fragilidade e força gritam. Com o microfone na mão direita, fala: “Houve uma redução fiscal e quem vai pagar pela redução fiscal não são os bancos, são os trabalhadores. Então, a gente é contra essa redução. E ainda, a gente tem uma coisa para falar para o [ministro da Fazenda, Joaquim] Levy”, acentua ainda mais a voz, faz gestos decididos com os punhos: “Se ele quer fazer redução, que ele vá taxar os grandes proprietários de terras, os grandes proprietários do país e não os trabalhadores”.

Aos 24 anos, Agnes já sabe bem o que é retirada de direitos. Filha de dona Simone, nasceu mulher, nasceu sem pai. Nasceu sem casa, nasceu sem teto. Nasceu sem privilégios, nasceu pobre. Nascer assim traz marcas profundas, traz a exclusão, ainda mais numa sociedade construída por rótulos. E para quem nasce assim, existem duas opções: lutar diariamente contra o processo de exclusão, ou se render a ele.

Sua vida é marcada por mudanças. Morou em alguns bairros de Itaquera, Zona Leste de São Paulo, de aluguel ou de favor, como a vez que dividiu o apartamento da avó com mais três famílias. “A minha infância inteira e minha adolescência foi se mudando de casa. Sou filha de mãe solteira, que tem mais quatro filhos. Então, ela não conseguia pagar o aluguel e se mudava de casa. Desde aí eu já sou sem teto, já me identifico com o que é ser sem-teto”.

No Brasil, tem milhões de brasileiros nestas mesmas condições, não conseguem pagar os aluguéis ou acessar as faixas de financiamento habitacional pelos mecanismos formais. Entretanto, o tamanho desta batalha ninguém vê, ela é quase invisível até mesmo nas estatísticas. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), por exemplo, ainda não tem números que retratam este perfil de gente. Mas essa gente existe. O MTST estima que “mais de 50 milhões de brasileiros não tem sequer moradia digna”. O dado pode estar próximo do real. Pode estar próximo da gente.

É 17 de fevereiro de 2014, uma noite de terça-feira como outra qualquer, se não fossem as tragédias da vida. Agnes está numa lotação sentido à Itaquera, vem da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), campus de Guarulhos. Já está próxima de seu destino, casa de sua mãe, quando percebe uma aglomeração. Que absurdo. O que está acontecendo?

– O que está acontecendo?

– A polícia... a tropa de choque tá chegando

– Gente, como assim? A tropa de choque está chegando, por quê?

– Porquê a agente ocupou, porquê a gente quer moradia. Eles vão mandar a tropa de choque, eles vão entrar.

– Calma! A tropa de choque não pode vir assim.

Trata-se de uma reintegração de posse do conjunto habitacional Caraguatatuba, em Itaquera, formado por 49 prédios, pertencentes ao programa Minha Casa, Minha Vida, da Caixa Econômica Federal. O local está ocupado por cerca de 940 famílias desde 25 de julho de 2013. Uma decisão da 13ª Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo, expedida em agosto do mesmo ano, indica que a habitação deve ser devolvida à Caixa.

Em 2013 e 2014, as ocupações de terras, prédios, e atos por habitação se acentuaram em todos os estados, em decorrência da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Num país onde faltam moradia, direitos básicos, como saneamento, segurança, saúde e educação, nem todos conseguem assistir aos preparativos para o Mundial com bandeirinhas nas mãos, e cantarolar “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, sem saber onde vai dormir, e o que vai comer. Para essa gente, perder de 7 a 1 já é rotina.

Agnes não volta para casa da mãe, fica na ocupação. Percebe que os moradores não estão organizados com Movimentos e busca ajuda. Conhece o MTST, identifica-se e se une a ele.

A decisão não agrada dona Simone. Diferente da filha, ela não se enxerga como sem-teto. Não aprova ocupações. “Minha mãe...é bem contra, ela não aceita”.

Continua.

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