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O valor do silêncio

Edvaldo Pereira Lima

 

A produção de textos narrativos de qualidade, centrados na vida real, envolve dois momentos distintos. O primeiro momento é aquele em que o autor realiza um mergulho destemido na experiência de interação com o cenário de ações, ambientes e personagens sobre o qual escolhe reportar.

É o momento em que os sentidos de captação e observação estão funcionando a pleno vapor, acionados pela porção da sua psique responsável pela focalização do mundo externo. O segundo ocorre quando o autor afasta-se dali, da intensidade interativa imediata, para permitir que a psique encontre o sentido pleno da experiência que viveu, assim como da experiência vivida pelos personagens de sua narrativa do real. É o momento em que instrumentos mais sutis e profundos de compreensão agem para trazer à luz da consciência a realidade do mundo interno.

Os dois momentos correspondem a dois estados psicológicos diferenciados nos quais entra o autor quando é bem-sucedido no desafio de contar uma boa estória humanizada - assim mesmo, sem o "agá", para divorciar o texto narrativo da palavra "história", que tem conotação ligada à prática historiográfica. O primeiro estado exige a priorização da atenção do autor em torno dos aspectos objetivos da realidade. É o território do pensamento lógico e concreto, de predomínio das faculdades típicas do lado esquerdo do cérebro, se tomarmos a teoria dos hemisférios cerebrais como uma das referências.

Mas aqui começa uma armadilha para o narrador da vida real. O propósito de uma boa matéria de Jornalismo Literário, e mais ainda, de Jornalismo Literário Avançado, deve ser o de buscar compreender o universo escolhido para abordagem. Significa integrar informações, encontrar associações entre elementos do mundo observado, entender o melhor possível o padrão de forças que conformaram a manifestação da realidade tal qual o repórter encontrou. Não quer dizer explicar, tampouco estabelecer uma relação simplista de causa e efeito. Muito menos deve limitar-se a expor uma situação, mesmo que de modo extenso, sem avançar para além do nível meramente informativo.

A narrativa da vida real demanda elucidações. E quando a compreensão formulada racionalmente torna-se impossível, o melhor que tem a fazer o autor é compartilhar da maneira mais honesta e íntegra possível a sua experiência de relato.

Quando se busca esse nível de expressão, o autor não pode ficar preso ao fascínio hipertrofiador, objetivante, que a observação intensa da realidade concreta lhe proporciona. É como se o explorador entrasse na floresta tropical e ficasse absorto pelo caráter exótico das árvores imediatamente à sua volta, não conseguindo voltar ao ponto de onde partiu. Só irá conquistar uma visão de conjunto da floresta inteira - compreendendo-a melhor - se escapar da prisão que os sentidos exacerbados criam. E só escapa, porém, quando volta-se para dentro de si mesmo, procurando na sua fonte interna de compreensão o sentido integrado do que viu, sentiu, cheirou, tocou e experimentou.

Tentar compreender o mundo apenas pelo aspecto dito objetivo da realidade é uma roubada. É a maior falácia da proposta científica reducionista predominante de nossa era, o maior engodo explicativo da nossa civilização, manipulado pelos poderes centrais ainda vigentes na política, na economia, na cultura, na educação. Aceitar o império da objetividade é pactuar com a falsa idéia de que o mundo é uma realidade linear, lógica, mecânica. As formulações intelectuais e muitas das propostas científicas podem apresentar-se assim, com alguma eficácia. Mas o mundo de carne e osso, suores, lágrimas e risos, glória e êxtase sobre o qual a narrativa da vida real se debruça não é assim. É mais complexo. Envolve tanto aquilo que compreendemos como objetivo, quanto o que chamamos de subjetivo.

A compreensão da parte que entendemos como objetiva não surge se ficamos apoiados apenas em instrumentos objetivos. Pois o sentido de qualquer coisa é mais profundo do que sua porção concreta. Abrange aspectos subjetivos, que não podem ser considerados inferiores, de segunda categoria. Ao contrário, são os aspectos subjetivos que nos revelam a integração entre as coisas, bem como sua participação num processo maior que a tudo abrange, como uma rede extraordinária de processos.

O narrador da vida real precisa, obrigatoriamente, dar vazão a essa busca ampliada de compreensão. Mas os instrumentos que o conduzem a esse patamar não são os da lógica. São os instrumentos das outras fontes de entendimento que o ser humano possui em si, e que lamentavelmente passaram anos sendo desprezados pela cultura, pela ciência, pela educação e pelo jornalismo predominantes em nossa sociedade. São os instrumentos mais afeitos ao modo de processamento do lado direito do cérebro, como a ciência mais arejada dos últimos 20 anos do século passado conseguiu entender, a partir do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1981 concedido ao neurologista Roger Sperry. São elementos como a intuição, o chamado pensamento imagético, a capacidade de síntese, a integração multimedia, digamos assim, entre os vários sentidos de captação e observação, abrangendo num mesmo todo as palavras, as imagens, as sensações, os sentimentos.

Para entrar nesse estado psicológico que traz à superfície da consciência a compreensão intuitiva, o autor da vida real precisa silenciar-se. Não haverá fonte externa alguma que lhe ajudará em primeira instância nessa tarefa. Não adianta recorrer em primeira mão aos especialistas. O escritor necessita calar-se, aceitar a voz que pode surgir, tímida, em si mesmo, apresentando de súbito, num lance intuitivo revelador, o sentido de um acontecimento, de uma situação, o aspecto até então oculto de um personagem.

O estado psicológico adequado para produzir essa revelação interna exige atitude contemplativa. É como se o autor, depois de passar um bom tempo convivendo com o universo sobre o qual vai narrar, se esquecesse um instante daquilo tudo, acalmasse os neurônios e então, em modo relaxado, sereno, permitisse que tudo desfilasse em sua mente, sob nova estruturação simbólica, para acontecer, num relance, a compreensão de tudo o que vivera. Essa compreensão pode surgir como um símbolo, uma imagem, uma associação de idéias, uma metáfora. Recursos perfeitamente aceitos em Jornalismo Literário.

Grandes mestres da narrativa da vida real têm executado esse movimento de mergulho intenso e de posterior afastamento para encontrar o "eixo", o "sentido" mais profundo de uma situação potencialmente narrável. Joseph Mitchell não se lançava na empreitada de escrever, após ter observado, entrevistado e convivido com seus personagens, enquanto não encontrasse dentro de si essa luz elucidativa. Gay Talese até hoje trabalha procurando intuitivamente esse "tom", essa "chave" interna.

A não obediência a esse trânsito entre um momento e outro, entre um estado psicológico de observação do mundo concreto e outro, de recepção dos sinais internos elucidativos liberados pela psique, frustra trabalhos promissores. Falham exatamente pela inexperiência dos autores ou pela educação distorcida que receberam, ao longo de sua formação, castrando o movimento de mergulho necessário para dentro deles mesmos. Vemos essa possibilidade tolhida em matérias jornalísticas, em livros-reportagem, em dissertações de mestrado, em teses de doutorado.

Podemos contornar esse problema, inspirando-nos nas lições iluminadas dos grandes mestres da narrativa que, felizmente, não se deixaram colher pela ceifadora de visões do sistema social míope e cruel. Mas podemos também agregar a isso outra tática.

Já estamos no século 21 e já existe, gestada no Brasil, a proposta de uma narrativa mais ambiciosa, que busca responder melhor aos desafios de constatação e expressão que a Literatura da Realidade enfrenta em nossa época. Existe o Jornalismo Literário Avançado.

Em seu contexto, navegam quatro caminhos que ajudam os escritores na tarefa de silenciar a exuberância dos sentidos estimulados pela experiência de observação do mundo externo, para trazer à consciência o sentido oculto das coisas.

sonho é o primeiro deles. Consiste em que o autor dê importância aos sonhos que possa ter durante todo o processo de produção de uma narrativa. Não deve adotar atitude passiva, mas agir proativamente, aprendendo a lidar com esse instrumento tão valioso de compreensão simbólica do real e de comunicação entre as instâncias mais profundas e as mais conscientes do indivíduo. Convém manter um caderno exclusivamente para anotar os sonhos no período, registrando-os tal como ocorrem, dando-lhes um título e anotando as datas.

meditação é o segundo. É o processo de silenciamento do burburinho interno constante da mente, para que aflorem as iluminações súbitas - os insights - de compreensão. Convém o autor adquirir maestria sobre esse processo, utilizando os recursos que lhe parecerem melhor. Habituar-se a contemplar a Natureza - uma bela paisagem de praia, um trecho de mata, um passarinho, uma flor - pode ser um bom início.

visualização criativa é o terceiro. Compreende, no estado meditativo, imaginar uma espécie de tela mental dentro da cabeça, por detrás da testa, na qual podem ser projetadas imagens espontâneas ou em resposta a perguntas lançadas em momento anterior.

observação de sincronicidades é o quarto. Significa estar atento a fenômenos aparentemente díspares mas que, de súbito, trazem-lhe um sentido inesperado. Por exemplo, você quer entrevistar uma celebridade, mas não sabe como chegar até ele ou ela. Toca o telefone e está do outro lado da linha um(a) amigo(a) que você não vê há muito. Seu amigo lhe diz espontaneamente que está trabalhando para uma empresa de assessoria de imprensa e que seu chefe é responsável pelo atendimento à celebridade que você tanto quer entrevistar. Você tomaria esse sinal como um encorajamento, não?

Por que esses caminhos todos funcionam e ajudam (desde que você se disponha a aceitá-los, respeitá-los e empregá-los num aprendizado paciente)? Porque no ato de observação da realidade, o repórter não está captando apenas os sinais objetivos que estão ao redor, chamando tanto a atenção dos seus sentidos. Em segundo plano, sutilmente, outra esfera da mente está também captando os sinais subjetivos, mesmo que você não perceba ou não os compreenda de imediato. Mais tarde, quando você sossega o cérebro, relaxa e usa os recursos aqui apontados, está convidando uma outra parte do seu ser mais profundo para vir à tona, trazendo-lhe um presente preciosíssimo. O presente impagável da compreensão empática da rede de conexões que nos permite compreender a realidade como um processo contínuo de criação.

Esse processo abrange nós todos, para o bem ou para o mal, queiramos ou não, num oceano ampliado de uma consciência complexa maior do que os indivíduos. A prudência sugere que, no mundo medonho de nossos dias, aprendamos rapidinho a nos sintonizar com o fluxo sadio do processo, deixando a parte destrutiva consumir-se na própria cegueira voraz que se recusa a ver.

* Jornalista. Doutor em Ciências da Comunicação. Professor da ECA-USP.

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