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A importância da descrição 

 

Edvaldo Pereira Lima

 

Tenho observado em meus alunos de graduação da Universidade de São Paulo uma característica narrativa que, creio, pode estar também presente em muitas outras instituições de ensino. Seus textos são geralmente bons no que se refere a um dos fundamentos da reportagem, que é a narração.

Esse fundamento serve ao propósito de ordenar os fatos, organizando-os no tempo e no espaço, focalizando as ações que constroem os acontecimentos num dado ambiente. Tudo o que acontece envolve um certo número de pessoas, num certo lugar, num determinado momento. Tem uma seqüência temporal, além de apresentar um elemento essencial, para o JL, que é a intensidade dramática própria das ações desencadeadas. Seu eixo é a ação, seu estilo é dinâmico. Algo assim como este trecho da matéria "Os Meninos do Recife", de Roberto Freire, publicada pela famosa revista “Realidade” em agosto de 1967:

Meia-noite em Recife. Maurício vem caminhando pela calçada deserta da Avenida Conde de Boa Vista. Cansado e com fome, carrega - dependurada ao pescoço - a caixa com a garrafa de café quente e os copos de papel. Alguns metros atrás, não conseguindo mais acompanhar os passos do amigo, Maria com a bandeja de doces de coco sustentada nos ombros. Quando Maurício pára diante de um edifício e encosta-se ao muro, Maria sente um grande alívio. Apressa o passo e chega a seu lado. Vai lhe falar, mas surpreende-se: Maurício está chorando. Segue seu olhar: diante de uma grade de ferro, sentada no degrau e com a cabeça coberta pelos cabelos e um braço, dorme uma menina de uns doze anos; no degrau de baixo, as duas sandálias coloridas. Maria vê que a menina aperta contra o peito um pequeno pacote feito com um lenço amarrado. Então também sente vontade de chorar. O casal - nenhum dos dois parece ter mais de 26 anos - senta ao lado da menina:

- Vamos dormir aqui - diz Maurício. - Pelo jeito com que ela segura a trouxinha, acho que fez boa féria hoje. Vamos ficar para que não roubem.

É essencial dominar a narração, naturalmente. Mas um texto de JL deve empregar uma variedade de recursos, para expressar a realidade sob perspectivas variadas, de um lado, para manter a reportagem interessante, para o leitor, de outro. Quando o texto está estruturado em apenas um fundamento, corre o risco de se tornar enfadonho e do leitor perder o interesse. Ao alternar recursos, porém, o autor tem melhor chance de evitar essa tendência natural, típica do comportamento humano. Nossa atenção tende a diminuir, quando somos receptores num processo de comunicação, se a mensagem nos é entregue de um modo só, num ritmo só.

Assim, é importante dominar outros fundamentos, como os diálogos e a descrição. E é esse último o fundamento que vejo ausente, na maioria das vezes, nos textos de alunos iniciantes na prática dos textos de reportagem.

A descrição é como um corte na dinâmica narrativa. Em lugar de focar a ação, interrompe-a momentaneamente para ilustrar características físicas e particulares de pessoas, ambientes e objetos. Serve ao propósito de iluminar os personagens de um acontecimento, o lugar onde se dá, os artefatos ali presentes. Como o nome sugere, é um lançar de luzes que amplia a nossa percepção, emoldurando melhor o acontecimento do qual trata a matéria. Algo como neste trecho do livro clássico de John Reed, "Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo", reproduzido por mim em "Páginas Ampliadas: O Livro-Reportagem Como Extensão do Jornalismo e da Literatura", publicado em 2009 pela Editora Manole, de São Paulo, quarta edição atualizada e ampliada. O trecho exemplifica também a passagem da narração para a descrição:

Exatamente às oito horas e quarenta minutos, uma tempestade de aplausos anunciou a chegada da presidência, com Lênin, o grande Lênin, à frente.
Uma silhueta baixa. Cabeça redonda e calva, mergulhada entre os ombros. Olhos pequenos, nariz rombudo, boca larga e generosa. Mandíbula pesada. Estava completamente barbeado. Mas a sua barba, dantes tão conhecida e que daquele momento em diante iria ser eterna, já começava a despontar novamente. O casaco estava puído; as calças eram compridas demais. Sua aparência física não indicava que ele poderia ser um ídolo das multidões.

Desconfio que a falta da descrição nos textos das novas gerações deve-se talvez, em parte, à exposição excessiva à televisão. A televisão, por saturar-nos de imagens e cores, não estimula nossa imaginação visual. Tendemos a ficar um pouco acomodados no nosso olhar. Ao mesmo tempo, o excesso de ênfase dos cursos de jornalismo sobre a ação, condicionando os futuros profissionais a encontrar sempre a ação principal de um acontecimento, na prisão perceptiva reducionista aos elementos “o que, quem, quando, como e onde”, principalmente, atrofia o olhar criativo e diferenciado. O profissional em formação parte para a rua em busca rápida desses elementos, não sendo estimulado a descobrir toda a riqueza que envolve a ação. O olhar pouco adestrado à imaginação não procura os elementos que fogem do padrão comum. Não enxerga o mundo com perspectivas diferenciadas.

Cabe um alerta a professores, principalmente, para colocarem em pauta exercícios apropriados à descontração do olhar, à abertura de horizontes visuais. Pouco a pouco, uma certa folga na pressão para o foco sobre a ação poderá trazer resultados promissores. Exercícios exclusivamente de descrição - de pessoas, lugares e objetos -, com muita ênfase em cores, formas, tamanhos e traços físicos, devem ser acionados com regularidade. Com o tempo, vai se perceber que os textos tornam-se mais equilibrados, ajustando com habilidade a narração e a descrição, numa primeira etapa, introduzindo nesse quadro outros fundamentos, num segundo, como o diálogo.

O JL do futuro sairá ganhando se o processo educacional conseguir preparar novas gerações com essa mentalidade aberta à exploração visual e multi-sensorial múltipla de um acontecimento.

* Jornalista. Doutor em Ciências da Comunicação. Professor da ECA-USP.

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