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Narrativa nos Jornais: A Experiência Americana (III)

 

 Edvaldo Pereira Lima

Harvard promove “o maior espetáculo da Terra”

O atual ciclo de reaquecimento do Jornalismo Literário nos Estados Unidos teria ainda dois fatores contribuintes importantes no início deste século, em paralelo aos que apontei nos dois artigos anteriores desta série – “Renascimento no Final do século XX” e “Novo ciclo no início do século XXI”.

O primeiro foi a tragédia de 11 de setembro de 2001, gerando um interesse enorme pelos heróis de carne e osso daquele dia fatídico: os bombeiros de Nova York, por exemplo. Cansado do excesso de presença de celebridades – e de suas vulgaridades –, o público manifestou considerável interesse por narrativas que retratassem o mundo profissional, familiar e pessoal desses gigantes anônimos do altruísmo e da coragem. Na carona do interesse também ganharam espaço pessoas comuns de todos os quadrantes do tecido social. Logo, percebeu-se, a escola do JL teria o que contribuir para esse desafio, com seu princípio da imersão do repórter na realidade e com sua inegável vocação para retratar também o mundo dos anônimos.

 

O segundo fator foi a decisão da Universidade de Harvard – a mais tradicional dos EUA, de elevado prestígio mundial – em abraçar a “causa” do JL.

 

Descubro esse segundo fator mais ou menos em junho de 2003, quando fico sabendo que Harvard está organizando um congresso especializado para dezembro. A iniciativa é liderada por Mark Kramer – professor universitário, sociólogo, repórter e colaborador de um dos templos do JL na América do Norte, a revista “The Atlantic Monthly” – co-editor de um livro referencial, “Literary Journalism”, e autor de livros-reportagem.

 

Troco e-mails com Mark, constato a amplitude do evento, tomo decisão: vou para este congresso!

 

Vários motivos me impulsionam. Participar de um congresso dessa natureza, inserido num ambiente de pura respiração e transpiração de JL durante três dias, junto a uma comunidade de estrelas, profissionais em ascensão e amantes da narrativa de não-ficção, seria como um fã e praticante de esporte ir para as Olimpíadas ou para uma Copa do Mundo de futebol. Imperdível!

 

Além disso, o valor sentimental. Harvard fica em Cambridge, Estado de Massachusetts. Você cruza o Rio Charles e chega a Boston, a capital do Estado. Morei ali pertinho, em Watertown, número 254 da Mount Auburn Street, casa dos pais da minha mentora Ann Hoskins Iodice. Dali, aos meus 17 e 18 anos, várias vezes saía para tomar o ônibus elétrico direto para Harvard Square, a menos de dez minutos, fascinado pelo ambiente intelectual da primeira grande universidade que conheci na vida. Garoto pobre do interior do Brasil lançado, pela cortesia do destino, de encontro a uma atmosfera estimulante.

 

Em Cambridge presenciei um pouco da efervescência da contracultura da década de 1960. Shows de rock, festivais de cinemas underground e pornô – o sucesso de “Deep Throat” invadindo as telas -, pequenas e grandes revoluções do “paz e amor”, a busca oriental de Alan Watts e também, em paralelo, a poesia de Robert Frost e os romances de Philip Roth. Nas bancas, as revistas que fazem do JL uma escola: “The Village Voice”, “The Rolling Stones”, “The Atlantic Monthly”, esta editada ali mesmo, em Boston. Volto ao longo dos anos algumas vezes, mesmo que de passagem para ir visitar Ann em North Adams, interior do Estado.

 

Mas este dezembro é diferente. Retorno para participar do maior encontro de JL do planeta. Para assistir, mas também para atuar, ativamente, como moderador convidado de um painel onde a editora Maria Carrilo vai contar como seu jornal, o “The Virginian-Pilot”, adotou e implementou o JL.

Sou um dos primeiros a chegar ao Hotel Hyatt na manhã da sexta-feira, dia 05, início do congresso. Na área de convenções, a secretaria já está pronta. Mark está por ali e nos conhecemos pessoalmente. Imagino encontrar um evento com um pouco mais de 100 inscritos. Seria extraordinário. Cem profissionais fanáticos por JL. Reunidos. Não estava preparado, porém, para o que ouço de Mark:

 

- São mais de mil.

 

Mil! Mil amantes de JL! Repórteres, editores, autores, professores – também alguns estudantes -, escritores de não-ficção famosos e anônimos, aprendizes e mestres.

 

Vão chegando aos poucos de todas as partes dos Estados Unidos. Arma-se lá fora uma tremenda tempestade de neve – será a pior da região em muitos anos – afetando os meios de transportes. No final do sábado, o aeroporto estará fechado, avisam. Os trens funcionarão com dificuldade. Mesmo assim, chega gente também da Dinamarca, da Espanha, da França, da Holanda, do Japão, do Peru, do México, de outros países. Sou o primeiro do Brasil a comparecer, diz Mark.

 

O grande número de participantes, Mark comenta, deve-se à forte marca do nome Harvard. Porque, descubro, esse congresso não é o primeiro. Mark ajudou a começar tudo quando ainda era professor da vizinha Boston University. Na ocasião, compareciam algumas centenas de interessados, mas nunca tantos. Harvard passou a dar atenção ao tema quando um dos braços culturais do seu complexo educacional – a Nieman Foundation for Journalism – dedicou boa parte da edição de outono do ano 2000 da sua revista acadêmica “Nieman Reports” a textos oriundos do congresso de Mark.

 

Num desses artigos – “Narrative Journalism Comes of Age”, Kramer aponta sinais do reaquecimento:

 

  • A Associated Press expandiu a editoria de negócios, designando mais de 20 escritores-repórteres para percorrer o mundo permanentemente, com tempo e espaço para escrever sobre os temas inspiradores que encontram.
  • Repórteres que se identificam como renegados das redações comparecem aos congressos anuais que ajudo a organizar, para aprender mais sobre jornalismo narrativo feito por gente como Mark Bowden, do jornal “The Philadelphia Inquirer”, Barry Newman, de “The Wall Street Journal” e Roy Peter Clark, do “Poynter Institute”.
  • Dezenas de jornais publicam agora reportagens organizadas em séries – seqüências de matérias publicadas em vários dias, abordando diferentes ângulos de um tema importante -, no formato de dramática reconstrução de eventos.
  • Algumas dezenas de jornais estão agora liberando repórteres que têm talento para escrever na forma narrativa.
  • Jornalistas que escrevem narrativamente estão conquistando prêmios importantes, como o Pulitzer.
  • Um grupo de discussão online sobre narrativa de não-ficção, organizado pelo jornalista Jon Franklin, atrai 350 repórteres que pagam 20 dólares anuais para participar desse fórum permanente.

 

Desde o início, Mark adota duas estratégias diferenciadoras para os seus congressos. A primeira é denominá-los “Congressos de Jornalismo Narrativo” (e não “de Jornalismo Literário”). “O espírito é puramente o do Jornalismo Literário, mas dou-lhe esse nome por uma questão de diferenciação de marketing”, explica Mark. A segunda é focalizar como alvo os jornais diários. A escolha tem lógica, pois enquanto muitas revistas norte-americanas praticam JL, os jornais não o fazem ainda em volume amplo. Portanto, aí reside um mercado potencial para quem deseja ampliar a prática narrativa na imprensa.

 

Do primeiro namoro, com Harvard dando destaque ao tema na revista, a aproximação evolui para um casamento pleno. Harvard resolve abraçar a causa, organizando em 2001 o “Nieman Program on Narrative Journalism”, trazendo Mark para dirigi-lo, com o status de escritor-residente. O Programa de Jornalismo Narrativo da Fundação Nieman na Universidade de Harvard (esse é o nome oficial) organiza-se, em princípio, em torno do congresso anual. Depois, em 2004, lança um Seminário Para Editores Narrativos. Em paralelo, começam dois outros projetos: o Nieman Narrative Digest – que será um portal especializado – e o Nieman Narrative Anthology, um livro-guia sobre Jornalismo Narrativo.

 

De volta ao presente, nesta manhã de sexta-feira de inverno rigoroso, em dezembro de 2003, abre-se a terceira edição do Congresso de Jornalismo Narrativo em Harvard, batendo o recorde de participantes. Fiéis ao princípio americano de que time is money, os organizadores estruturam o evento em programação intensa, tendo sempre uma palestra de tema principal ou painel de discussão nobre no grande auditório durante o dia, seguido de vários outros painéis subtemáticos simultâneos, nas diferentes salas de reuniões. E na hora do almoço - nada de mordomia, lembram-se do time is money? –, mastigando lanches retirados no restaurante self-service -, todos se dirigem de novo para o auditório principal. Desta vez, autores escolhidos lêem para a platéia trechos de suas próprias matérias ou comentam como trabalharam algumas de suas reportagens, num divertido “making of” público.

 

Divertido porque a platéia de especialistas, generosa e conhecedora de causa, sabe reconhecer um trecho engraçado do(a) colega que lê sua obra, um momento de humor no texto, na confissão de uma experiência folclórica de interação repórter-fonte. A platéia sabe o quanto custa observar bem a vida real, o valor de uma empatia conquistada entre autor e personagem, o suor para a construção da frase que expressa uma cena com equilíbrio elegante, sem mais nem menos. Por isso ri à vontade, aplaude com gosto. Silencia, ouve com respeito quando a narrativa é dramática, tensa. São todos fãs do bom texto. Reconhecem quando alguém acerta na mosca.

 

Estou no paraíso. Não me importo de pegar rápido o sanduíche de salmão, o suco de fruta favorito – de cranberry –, a maçã volumosa de sobremesa, um pouco de fritas com catchup. E voltar quase correndo para o auditório, mastigando tudo meio apressado, para apreciar no palco Susan Orlean de olhos sorridentes, cabelos ruivos descendo para além dos ombros, lábios carnudos realçados pelo batom vermelho intenso, ar de garota sapeca. Não me leve a mal. Susan é repórter consagrada de “The New Yorker”, autora de livros-reportagem de sucesso – “Saturday Night” e “The Orchid Thief”, entre eles -, duas matérias convertidas em filmes de Hollywood , “Adaptação” (com Nicolas Cage e Meryl Streep) e “A Onda dos Sonhos” (com Kate Bosworth, Michele Rodriguez e Matthew Davis). Susan é uma contadora de estórias nata. Seria menestrel na Idade Média, memória oral da tribo na Idade da Pedra. A boca, o olhar, os cabelos são meios de comunicação, com graça, dos casos que compartilha em busca da toureira na Espanha, do ator adolescente genioso na América, da surfista no Havaí.

 

Susan flui, falando ou escrevendo. Como neste trecho de abertura da matéria “Orchid Fever” (“Febre de Orquídea”), publicada em “The New Yorker” em janeiro de 1995 e que deu origem ao filme “Adaptação”:

 

John Laroche é um sujeito alto, magro como pau, ombros caídos, mas bonitão, apesar dos dentes da frente que lhe faltam na boca. Tem a postura de “espaguete al dente” e a intensidade nervosa de quem joga muito videogame. Tem 34 anos e trabalha para a tribo Seminole da Flórida, preparando um viveiro de plantas na reserva tribal perto de Miami. Os apelidos Seminole para Laroche são Branco Doido e Encrenqueiro. Conheci Laroche no verão passado, no novo fórum do Condado de Collier, em Naples, Flórida. Rolava na ocasião uma audiência de Laroche, depois de ter sido preso por levar ilegalmente orquídeas silvestres, pelas quais é apaixonado, para fora da Reserva Estadual de Fakahatchee Strand, que ele adora. Laroche não se vestia bem para a ocasião. Usava óculos escuros Mylar, camisa de algodão com uma paisagem qualquer desenhada, calças arriadas na parte traseira. Pediram-lhe para se aproximar, dizer nome e endereço, descrever sua experiência profissional com plantas. Laroche caminhou desleixadamente para o centro do tribunal. Estendeu o queixo. Falou com voz rouca, arrastada. Pousou os polegares no cinto da calça e disse: “Sou horticulturista há cerca de 12 anos. Já tive um viveiro de plantas próprio... Tenho muita experiência com orquídeas, e com a micropropagação assexuada de orquídeas em culturas assépticas”. Então abriu um sorriso e disse para o júri: “Acho que sou a pessoa mais inteligente que conheço”.

 

Uma festa. Que continua nas salas subtemáticas.
Numa delas, ouço a imponente Jacqui Banaszynski, olhos azuis intensos como faróis, longos cabelos grisalhos emoldurando os traços dessa mulher grande, forte, compartilhar sua visão sobre as peculiaridades dos diferentes tipos de perfis. Editora de projetos especiais no jornal “The Seattle Times”, professora de jornalismo, Jacqui sabe. Já conviveu longamente com refugiados curdos no Iraque e já acompanhou expedição de trenó pela Antártica. Tudo para escrever perfis. Sacrifícios pela arte.

 

Noutra sala, tenho a honra de moderar a apresentação de Maria Carrilo, filha de cubanos, que conta como seu jornal, “The Virginian-Pilot”, de Norfolk, na Virgínia, aumentou circulação e vendas implementando uma editoria de jornalismo narrativo, que ela dirige. Os exemplos ilustram a maestria que o jornal conquistou em ancorar qualquer tema especializado – de ciência a polícia – em figuras humanas, tornando-os, portanto, universais. Mesmo os temas regionais e locais são transportados assim para um patamar de universalização que pode interessar não só aos habitantes de Norfolk e vizinhanças, mas a gente de qualquer lugar.

 

A festa prossegue na sala de vendas de uma livraria de Cambridge que monta estandes só com títulos de JL, livros-reportagem e teóricos. Uma tentação, uma ameaça para o bolso. Tantos títulos importantes! A mala vai voltar cheia!

 

Nos corredores, amizades que se formam. Tom Haines, que pratica JL escrevendo para o caderno de viagens de “The Boston Globe”, recém-chegado do Brasil, onde foi conhecer Rondônia para uma matéria. Dan Lehman, o professor que a duras penas edita a revista acadêmica “River Teeth”, dedicada à narrativa de não-ficção. Os Estados Unidos são um país rico, mas publicações acadêmicas lutam com dificuldades como em qualquer outro lugar.

Na hora do jantar, um compartilhar de mesa com novos amigos e Tom French, exímio arquiteto de histórias da vida real há mais de vinte anos no “St. Petesburg Times”, de Tampa, na Flórida. Olhar receptivo, estatura média, barriga já um pouco saliente, algo gordinho, Tom é um sujeito com o tipo físico que faz as pessoas quererem contar-lhe coisas, aposto. O semblante não é de tensão, como vemos em muitos repórteres do dia-a-dia. É de um sossego ativo, de quem está sempre pronto para ouvir um bom caso.

 

Essa capacidade tem rendido a Tom ótimas matérias, muitas transformadas em narrativa seriada, uma especialidade sua. Uma delas – “A Menina Que Tem A Mãe Morando no Céu e Outras Estórias do Jardim no Fim do Mundo” – é uma pungente reportagem sobre crianças asiáticas refugiadas nos Estados Unidos e a duríssima adaptação de suas famílias ao novo país.

 

Tom descobriu essa história quando levava seus filhos à pré-escola, vendo crianças asiáticas brincando por ali. Começou a se interessar em saber quem eram, como haviam chegado aos Estados Unidos, como eram seus pais. Obteve as permissões devidas de autoridades e pais, partindo então para o convívio regular com as crianças e as professoras. Uma garotinha de quatro anos, Mari Truong, que no começo nem fala inglês, é sua protagonista entre as crianças, enquanto as senhoras Crow e St. Clair são as protagonistas entre as professoras. Tom passa 18 meses acompanhando a trajetória das crianças, até que estão prontas para seguir adiante, rumo ao jardim-de-infância. Como se não bastasse todo o drama de adaptação da família de Mari, a mãe morre de leucemia. A menina acredita que a mãe mudou-se para o céu, de onde envia chuva e olha por ela. A série termina assim:

 

O último dia é 26 de julho. As crianças brincam, comem biscoito, tomam sorvete de baunilha. Jack, que agora mudou o interesse da música para as artes marciais, pratica chutes de caratê até que a sra. Crow pede-lhe para parar.
“Jack, nada de kung fu”, diz.
Mari está no balanço, impulsionando-se para o carvalho. Junedy sobe noutra árvore e grita para a senhora St. Clair.
“Sabe o quê? Vejo uma folha.”
Na sala de aula, a senhora Crow coloca Richard no aparelho de som, deixa-o brincando. As crianças cantam junto, dançam como loucas, grunhem como porcos, latem como cachorros. Seguindo o exemplo da senhora Crow, Mari e Junedy esticam os dedos, fingindo que tocam o piano junto com Little Richard.
A música ainda está no ar quando o ônibus chega. As professoras pedem para as crianças pegarem as mochilas.
“Ok”, diz a senhora Crow, ainda tentando acalmar a respiração. “Quem vai primeiro na fila?“
Junedy dá um passo à frente, as outras crianças alinham-se atrás dele. Andando em fila indiana em direção ao ônibus pela última vez, cantam mais uma canção.

 

Os E.U.A. são um bom lugar,
mas são apenas parte do lugar chamado Terra.
A Terra está no espaço,
que é parte do universo.

 

A senhora Crow e a senhora St. Clair entram no ônibus, passam no corredor afagando as cabecinhas, pedindo abraços, dizendo adeus.
“Divirtam-se no jardim-de-infância,” diz a senhora St. Clair.
“Sejam boazinhas no jardim-de-infância”, diz a senhora Crow.
A senhora Crow encontra Mari no fundo do ônibus. Abraça-a de leve, depois solta-a.
As professoras saem do ônibus e acenam adeus quando ele se afasta. Elas voltam pela calçada, dirigem-se à sala de aula. Um instante atrás, a sala estava borbulhante de barulho e energia. Agora está quieta, vazia, morta.

 

A senhora Crow pára na janela, olha para fora. Ela se pergunta se tudo bem, agora que elas se foram, chorar.

 

Neva a noite inteira, de sexta para sábado, assim como sábado de manhã. Não consigo mais táxi para ir do meu hotel ao congresso. Mas tudo bem. São apenas duas quadras. O Rio Charles, em frente ao hotel, está congelado, uns patinhos negros refugiando-se agora mais distante, onde ainda há água corrente. A neve cobre toda a pista da avenida, pouquíssimos carros se aventuram. Os sinais de trânsito estão completamente pifados.

 

Saio feliz como criança, sábado cedo, lembrando-me da minha primeira semana nos Estados Unidos há anos, a poucos quilômetros dali. Ann, a professora que nunca soube o que é pedagogia e só foi professora uma única vez na vida, me ensinando inglês aos meus 12 e 13 anos, voluntária de um programa social nos confins do Brasil, bateu-me na porta do quarto um pouco antes da meia-noite. Surpresa: lá fora flocos brancos desciam mansamente. Pela primeira vez na vida eu via neve. Essa mesma neve que agora me impedia de ir visitá-la no interior, após o congresso, pelo perigo instalado nas estradas. Ann, que ajudou a mudar meu destino. Ann, que foi a melhor de todas as minhas professoras, pela força da dedicação amorosa compassiva.

 

Caminho no centro da avenida deserta, rumo ao congresso. Aqui e ali, galhos de árvores partidos, pelo peso da neve, pelos mini-tornados assobiantes que varreram a noite. Numa rua lateral, um carro abandonado pelo dono, soterrado sob camadas densas de branco. Nenhum outra moldura poderia decorar tão bem meu extraordinário espírito interno de alegria e gratidão à vida por este momento de júbilo em que a satisfação pessoal integra-se ao êxtase profissional. No Brasil, espera-me, para concluir o semestre, o extraordinário grupo de alunos que compõe minha melhor turma de uma disciplina de pós-graduação na USP na minha carreira, até agora. A turma de JL de 2003. Um grupo coeso, sintonizado, muito especial, solidário e amoroso, inteligente e dedicado.

 

Mais dois dias de êxtase. E no final de tudo, ainda, no encerramento do congresso domingo à tardinha, o convite de Mark para juntar-me a um seleto grupo que vai jantar em sua casa.

 

Ali conheço Sonia Nazario, do “Los Angeles Times”, ganhadora do Prêmio Pulitzer - o mais importante de reportagem –, que me conta o quanto valeu sua origem latina (ela é americana, filha de argentinos, fala espanhol fluentemente) para mergulhar numa viagem clandestina pela América Central e pelo México rumo aos Estados Unidos, juntamente com imigrantes ilegais, reproduzindo a saga de um menino que sai em busca da mãe, tema da sua matéria seqüenciada vencedora. Conheço o editor Rick Mears, compreendendo então por que o “Los Angeles Times” tem conquistado tantos prêmios nos últimos anos. Rick comanda uma equipe de repórteres especializados que só fazem matérias em estilo de JN (Jornalismo Narrativo). E ouço do repórter Barry Newman, de “The Wall Street Journal”, por que esse jornal tão especializado insiste – com sucesso – em produzir constantemente algumas de suas matérias em estilo de JL. “Economia”, explica Barry, “não é assunto exclusivo para especialistas. Economia afeta todo o mundo e todo o mundo precisa entendê-la. O único jeito de fazer isso é humanizando as matérias”. Que os editores dos jornais e revistas de economia do Brasil lhe ouçam, caro Barry!

 

Depois do jantar, Mark e seus dois filhos garotos lideram todos numa excursão para uma alegre experiência juvenil de deslizamento em trenó rústico, morrinho abaixo, num parque completamente tomado pela neve, a três quadras. Até o recatado professor Takesato Watanabe, promotor do JL na Universidade Doshisha, em Kyoto, abandona o formalismo japonês para arriscar um tombo ou dois.

 

Volto para o hotel grato pela oportunidade de presenciar o forte movimento de reativação do JN – ou JL – que Harvard promove. E sonho acordado com a história mais incrível que ouvi no congresso, contada pelo jornalista e professor Torben Nielsen, do Centro de Jornalismo e Educação Superior da Dinamarca, confirmada pelo próprio Mark Kramer. Entusiasta do JL, Torben foi dos primeiros estrangeiros a freqüentar os congressos organizados por Mark. Conseguiu motivar colegas dinamarqueses a também comparecer, além de introduzir cursos de JL no seu centro de ensino. A reação da imprensa dinamarquesa foi estupenda. Os 30 mais importantes jornais do país abandonaram de vez a escola do lide e da pirâmide invertida como principal vertente da prática jornalística. A modalidade dominante é agora a narrativa. Veículos, editores, repórteres, donos de jornais e os leitores estão muito felizes com isso, obrigado.

 

Vou dormir em paz, sem preocupação em querer adivinhar se daqui a dois dias, quando planejo voltar para o Brasil, o aeroporto estará operando normalmente. A neve já não cai mais. Só o frio é intenso. E quanto ao congresso, a campanha de Harvard de incentivo ao JL continua em 2004... em 2005.... em 2006... em...

 

* Jornalista. Doutor em Ciências da Comunicação. Professor da ECA-USP.

 

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