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Narrativa nos Jornais: A Experiência Americana (I)

 

Edvaldo Pereira Lima

Renascimento no final do século XX

 

Muita gente no Brasil pensa, erroneamente, que o jornalismo dos diários norte-americanos resume-se àquele padrão típico do “US Today”. Ou seja, o jornalismo da pirâmide invertida e do lide, do texto curto e fragmentado. Talvez essa idéia proceda do fato histórico de que foi dos Estados Unidos que o jornalismo brasileiro importou esse formato tão presente e disseminado nos nossos jornais até hoje.

 

Um olhar mais atento, porém, revela que o jornalismo norte-americano, ao contrário, reflete a multiplicidade cultural do país. Se a pirâmide invertida está muito presente no jornalismo de lá, também é fato que ela coexiste com o vigor do Jornalismo Literário (JL) e suas variantes. Em muitos casos, os jornais também abrem espaço pleno para essa modalidade, embora o JL marque mais presença em revistas comoEsquire, The New Yorker, The Atlantic Monthly e outras (os EUA são pródigos em publicações que abrigam o JL). Na pior das hipóteses, há espaço em pelo menos para a prática de alguns atributos do JL em jornais diários.

Na América do Norte, historicamente, o jornalismo de formato mais tradicional, digamos, e o JL, com suas abordagens mais arejadas e textos mais elaborados, têm coexistido ao longo do tempo. Mais recentemente, os jornais têm buscado utilizar, com maior intensidade ainda, os recursos narrativos do JL, até por uma estratégia de sobrevivência, procurando recuperar leitores.

A gradativa perda de leitores obrigou as organizações jornalísticas a considerarem alternativas que pudessem combater eficazmente o problema, retendo e atraindo novos leitores. Um dos itens-chave pensados logo de início foi a forma narrativa das matérias. Iniciativas espontâneas foram tomadas, aqui e ali, nas redações. Logo depois apareceram eventos estimuladores de práticas.

Em 1999, um artigo de Warren Watson, “Using narrative style”, produzido para a American Society of Newspaper Editors – entidade que congrega os editores de jornais americanos – já apontava o valor da forma narrativa, acompanhando o renascimento do interesse manifestado por profissionais no final da década de 1990. Warren destaca no artigo três vantagens especiais da forma narrativa, que, na verdade, é a incorporação pelo jornalismo da arte de contar/escrever uma boa estória (sem “h” e sem “i”; mais adiante, neste mesmo texto, você verá o porquê):

Narrativas despertam o interesse do leitor – e ajudam a vender jornais.

Narrativas possibilitam contar histórias complicadas, permitindo aos leitores descobrirem os sentidos de suas vidas.

Narrativas têm um profundo e positivo efeito sobre a motivação nas redações.

O autor aponta diversos exemplos que ilustram o quão bem-sucedidos já haviam sido, naquela ocasião, projetos experimentais de adoção da forma narrativa em grandes e pequenos jornais americanos.

O “The Atlanta Journal” recriou em forma narrativa, numa reportagem publicada em série (seis matérias), o caso de um acidente de avião, recontado pelos sobreviventes. A resposta dos leitores foi extraordinária, com mais de 400 emails enviados para a redação, muita gente confessando que mal conseguia esperar pela edição do dia seguinte para ler a continuidade da estória (agora sim: sem “h” e sem “i”, para diferenciar a matéria jornalística de profundidade da “história”, termo sisudo e algo engessado, muito atrelado ao universo historiográfico tradicional).

O “The Sun”, de Baltimore, publicou uma série que durou 16 dias, focalizando a batalha de uma mulher contra o câncer. No primeiro dia, a venda do jornal em banca teve um aumento de 9.500 exemplares; no último, o aumento foi de 7.000 exemplares. A média geral de aumento de vendas ao longo da série foi de 3%.

Na Califórnia, o “The San Diego Union-Tribune” publicou uma série de 15 dias sobre a saga de um empresário empreendedor em torno do seu projeto de criação, desenvolvimento, lançamento e comercialização de um novo brinquedo. A série provocou tanta reação positiva dos leitores que o jornal precisou instalar uma linha especial de telefone apenas para atendê-los. Foram registradas 650 ligações de leitores, dos quais 285 gravaram depoimentos longos, quase todos elogiosos.

O que os editores aprenderam com esses experimentos?

Destaco duas citações do texto do Warren, que falam por si mesmas: “O leitor vai arranjar tempo de sobra para ler o jornal, sim, se dermos a ele algo de fato saboroso para ler”, comenta um editor, combatendo a velha “crença” de que o leitor não tem tempo (e não gosta) para ler. A narrativa proporciona, para os jornais, a tão almejada conectividade com o leitor, conforme relato de outro editor: “A narrativa é uma forma natural de contar as coisas, que habita a nossa consciência. Parentes dos passageiros do acidente do avião nos escreveram para dizer que, pela nossa série, finalmente compreenderam o que seus familiares tinham de fato vivido”.

Os experimentos de incorporação da forma narrativa às redações ganhariam mais força ainda um pouco adiante, quando no ano 2000 o Readership Institute realizou uma pesquisa de profundidade – The Impact Study of Readership - com o objetivo de entender o comportamento de leitura dos leitores de jornais e propor medidas estimulantes. Já não se tratava mais de uma iniciativa espontânea isolada, mas de um programa oficial de pesquisa lançado por uma instituição de prestígio – parte do Media Management Center da Northwestern University -, fundada e mantida em conjunto por essa universidade, pela American Society of Newspaper Editors e pela Newspaper Association of America, a entidade representativa dos jornais norte-americanos. A pesquisa (tema que será detalhado no segundo artigo desta série) mostrou a importância da forma narrativa para os jornais manterem e ampliarem suas bases de leitores, aumentando venda e circulação.

* Jornalista. Doutor em Ciências da Comunicação. Professor da ECA-USP.

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