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Registros breves para uma história futura do Jornalismo Literário

 

Edvaldo Pereira Lima

 

A Literatura da Realidade - outro nome que se dá ao Jornalismo Literário - caracteriza-se pelo uso de técnicas da literatura na captação, redação e edição de textos sobre a vida real.

 Na maioria das vezes, são textos com características nítidas de reportagens e ensaios narrativos, poderíamos assim dizer. Pressupõe um mergulho intenso do narrador no ambiente sobre o qual escreve.

Primórdios dessa interface entre o jornalismo e a literatura - que formariam no futuro a Literatura da Realidade - estão presentes em vários casos significativos da história contemporânea. Na literatura de ficção européia do século XIX, a escola do realismo social caracterizou-se pela ação do escritor em realizar pesquisas de campo detalhadas, antes de compor um romance ou uma novela. Suas histórias nasciam de observação minuciosa da realidade.

Na Inglaterra, Charles Dickens fazia levantamentos de ambientes, costumes, tipos humanos e linguagens, normalmente junto às classes socialmente marginalizadas, como ponto de partida para construções literárias. Na França, Balzac primou pela precisão de observação, sendo tão exato na reprodução de ambientes que essa prática inspirou uma técnica do New Journalism norte-americano dos anos 1960 e 1970: a técnica dos símbolos do status de vida (fato reconhecido e comentado pelo próprio Tom Wolfe em seu "The New Journalism" (Londres: Picador); reproduzi essas observações em meu livro "Páginas Ampliadas - o Livro-Reportagem Como Extensão do Jornalismo e da Literatura" (Editora Manole, 2003).

Além do uso desses recursos de captação, muito similares ao que fazem hoje os jornalistas literários e os narradores da realidade, mergulhando fundo nos ambientes sobre os quais escolhem escrever, outro fenômeno interessante do século 19 é o fato de escritores de ficção também produzirem trabalhos jornalísticos, que ficariam bem caracterizados sob uma modalidade que o crítico literário Boris Schnaiderman denomina "literatura do fato real" ou "literatura fática", conforme entrevista que me concedeu e aproveitei em "Páginas Ampliadas". Boris aponta que o próprio Dostoiévski produziu escritos de caráter jornalístico, assim como fez José Martí, em Cuba.

Tom Wolfe indica Mark Twain - praticante do realismo social em sua literatura de ficção - como um dos escritores norte-americanos que usaram o talento literário para fazer jornalismo, assim como Ernest Hemingway e John Dos Passos. Também embarcaram nessa fluência criativa tanto no jornalismo quanto na literatura, nos Estados Unidos e na Inglaterra, John Steinbeck, Mary McCarthy, Janet Flanner e George Orwell.

No caso brasileiro, um grande pioneiro dessa interface histórica foi Euclides da Cunha em "Os Sertões", assim como encontramos em Graciliano Ramos um ótimo expoente do realismo social na nossa literatura. Pode-se perceber um pouco da influência dessa literatura em algumas das reportagens que marcaram época na fase de ouro da revista "O Cruzeiro", nos anos 1950.

De um modo espontâneo, a literatura desses pioneiros acabou influenciando o jornalismo. A via mais direta de influência aconteceu através de escritores que praticaram também o jornalismo, numa primeira instância. Depois, numa fase mais avançada, outras gerações de jornalistas já encontraram precedentes dessa aproximação, podendo então partir desde o início de suas carreiras para um jornalismo fortemente caracterizado pela presença de recursos literários de captação, redação e edição para reproduzir, com fidelidade, o real. Um caso clássico é o do jornalista norte-americano John Reed, que se notabilizou primeiro escrevendo sobre a revolução mexicana de Zapata ("México Rebelde", publicado no Brasil em 1959 pela extinta editora Zumbi) e depois sobre a revolução bolchevique que fundaria o regime soviético ("Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo", que acaba de sair em nova edição pela Ediouro).

Essas iniciativas em praticar um jornalismo diferente do convencional foram espontâneas e individuais até cerca da década de 1920. Não havia ainda uma "escola do jornalismo literário" ou uma corrente com esse nome. Os procedimentos de uso dos recursos literários aconteciam por opção dos narradores. Na maioria das vezes, eram produções direcionadas ao livro-reportagem, já que pouco espaço havia na mídia periódica para a inserção de matérias tão extensas e elaboradas.

O panorama começa a mudar, ganhando um contorno de "escola", a partir dos anos 1920 e 1930, quando a revista norte-americana "The New Yorker" passa a produzir um tipo de matéria jornalística que ganha melhor feitura quando é elaborada no estilo do Jornalismo Literário: o perfil.

Entram por essa linha jornalistas que conquistam prestígio escrevendo essas reportagens que retratam com vigor e alcance figuras públicas ou anônimas. São dessa primeira fornada de narradores de primeira qualidade gente como A. J. Leibling, Joseph Mitchell, James Agee. Nos anos 1940, já se pode dizer que está formatada essa modalidade de prática jornalística, pelo menos no caso norte-americano, pela presença de um número crescente de jornalistas que se mantêm fiéis à proposta.

Esses profissionais encontram espaço crescente em revistas e livros-reportagem para matérias cada vez mais abrangentes e ousadas no uso de recursos literários. "True" vem juntar-se a "The New Yorker" como publicação periódica que dá guarida preferencial a essa modalidade de jornalismo. Até mesmo "Life" incorpora algumas matérias nesse feitio. O Jornalismo Literário já conta então com grandes nomes de uma nova geração entusiasta, como Truman Capote, Lillian Ross e Al Stamp.

As matérias de John Hersey chamam então a atenção e conquistam de vez o público com sua fabulosa narrativa "Hiroshima", que em 1946 ocupa uma edição inteira da "The New Yorker". O trabalho de Hersey transforma-se em ícone do Jornalismo Literário. Seu impacto e influência - a matéria foi considerada a reportagem mais importante publicada nos Estados Unidos no século 20 - não só galvanizam o interesse do público como também injetam uma enorme dose de autoconfiança nos narradores jovens que pretendem afiar seu talento nessa seara. Podemos dizer que, enquanto modalidade reconhecida, praticada por um número expressivo de profissionais e abrigada em periódicos, além de livros-reportagem, o Jornalismo Literário alcança a idade adulta, portanto com nome próprio, nos anos 1940.

Depois, a efervescência própria do New Journalism dos anos 1960 e 1970 traz um impulso rejuvenescedor para o Jornalismo Literário. Não só nomes consagrados - como Truman Capote e Norman Mailer - aparecem de novo com brilho, como desponta uma extraordinária geração de narradores de talento excepcional, como Tom Wolfe, Gay Talese, Jimmy Breslin, Hunter S. Thompson, Joan Didion, George Plimpton e Barbara L. Goldsmith, entre tantos. Jornais também passam a abrir espaço para o Jornalismo Literário - como o "Herald Tribune", o "Daily News" e o próprio "The New York Times" -, assim como outras revistas e tablóides embarcam na viagem, caso de "Esquire" e "The Village Voice".

Quando o New Journalism perde força, especialmente em decorrência das críticas a procedimentos de alguns autores - exageros estilísticos, "composições" de personagens e situações -, o Jornalismo Literário norte-americano continua a se expandir, sem a exuberância dessa fase, mas ganhando e ampliando espaço, principalmente através dos livros-reportagem.

Nas décadas seguintes ao auge do New Journalism, despontam outras estrelas no firmamento norte-americano do Jornalismo Literário, renovando sua prática, ampliando seu alcance. Surgem Tracy Kidder, Mark Kramer, Joseph Nocera, Susan Orlean, Adrian Nicole LeBlanc, Lee Gutkind.

Não se deve deduzir equivocadamente, porém, que o Jornalismo Literário é exclusividade norte-americana. Aqui no Brasil tivemos um momento de apogeu de uma fase anterior, nos anos 1960 e 1970, com a magnífica epopéia da revista "Realidade" e com a menos glamorosa, mas igualmente importante produção do "Jornal da Tarde" paulista, que contou com grandes repórteres como Marcos Faerman, Fernando Portela e Cláudio Bojunga.

Na Colômbia, Gabriel García Márquez professa sua predileção por essa modalidade de jornalismo desde o início de carreira nos jornais locais, como atesta seu livro "Relato de Um Náufrago" (Record), um pequeno clássico que reproduz matéria primorosa publicada originalmente no final dos anos 1950. Décadas depois, já ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, famoso e rico, Gabo investiria seu amor pelo jornalismo criativo formando em Cartagena uma instituição de ensino que visa cultivar essa abordagem nas novas gerações de narradores do real. É a Fundación Para un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Também é publicada na Colômbia uma excelente revista de Jornalismo Literário em língua espanhola, a "GatoPardo".

No México, jornalistas-narradores como David Martín del Campo e Elena Poniatowska marcam presença com uma forma própria, singular, de produzir textos que informam, impactam, sensibilizam, envolvem, humanizam, orientam, comovem, fazem pensar. Na América do Norte, hoje, muitos autores de Jornalismo Literário evitam chamar suas produções de "jornalismo". É que sofreram tanta pancada e crítica dos ortodoxos do fazer jornalístico - os que acham que só é jornalismo a matéria pura e reducionisticamente factual, presa à antiga fórmula do que, quem, como, onde, por quê, descarnada de qualquer imersão significativa do repórter no olho do furacão de seu tema de abordagem - que resolveram denominar seu trabalho de outra coisa.

Gay Talese mesmo há tempos só chama sua produção de Literatura da Realidade. Desde que adotou o nome, os críticos deixaram de importuná-lo. Ele vai muito bem, obrigado, escrevendo com estilo, como sempre, reportando com maestria, continuando a ter sucesso de público com seus novos e antigos títulos. Ainda por cima, leciona nas horas vagas em um curso de pós-graduação, em nível de mestrado, que aborda a nova/velha arte da Literatura Criativa de Não-ficção, o nome em voga no circuito universitário norte-americano atual, que já aplica seu olhar acadêmico para pesquisar, compreender e ensinar essa modalidade vibrante de reportar o mundo contemporâneo.

Os jornalistas literários e narradores da realidade do final do século 20 e começo do século 21 estão provando que é possível escrever narrativas da realidade sobre qualquer tema. Desprezam o compromisso com o "gancho", esse jargão jornalístico que tão fortemente determina a vida e a morte dos temas que merecerão cobertura na mídia. No Jornalismo Literário o horizonte de tempo não se limita à atualidade, abrange a contemporaneidade, isto sim.

O objetivo central não é direcionar o foco de visão a um fato noticioso estreito, mas abarcar a vida como ela é, nas suas grandezas escondidas por detrás das rotinas. Por isso os narradores do real aplicam seu talento a todos os setores da vida moderna, da política à economia, do esporte à viagem, da educação à ciência. Dedicam-se meses a fio para compreender e narrar com propriedade as dimensões humana, social, econômica de se construir uma casa, de se conduzir um ano letivo numa escola primária, de se realizar uma infinidade de transplantes de órgãos num centro cirúrgico, de se desencadear uma revolução tecnológica no mundo da informática. O elenco de temas é tão vasto quanto a própria vida, a liberdade de pautas é tão flexível quanto a complexa, mutante realidade da nossa civilização em acelerado processo de mudança.

O futuro do Jornalismo Literário no Brasil? É uma incógnita. Mas alguns sinais são sugestivos. Um deles é o lançamento recente da coleção Jornalismo Literário, da editora Companhia das Letras, por exemplo. O fato é que o surgimento da internet, o crescimento dos livros-reportagem e a angústia crescente de revistas e jornais que percebem não ser mais possível competir informativamente com o rádio e com a televisão, têm feito algumas boas cabeças pensantes no mercado considerar algo que, modestamente, há mais de 15 anos defendemos: só há futuro nobre para o jornalismo impresso se este assumir de novo a reportagem e o ensaio de profundidade como seus principais gêneros, renovando em paralelo a linguagem, o modo de ver, captar, compreender e expressar o complexo mundo de nossa era. Quem pode contribuir com algumas lições importantes nesse resgate é o Jornalismo Literário ou Literatura da Realidade.

* Jornalista. Doutor em Ciências da Comunicação. Professor da ECA-USP.

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