Memória Portal ABJL

Sopro Inspirador

 

Edvaldo Pereira Lima

 

Em qualquer área de atuação humana, o praticante precisa dominar seus fundamentos. Lembro-me, quando garoto, ler admirado que Tostão - a grande estrela do Cruzeiro de Belo Horizonte, craque da seleção brasileira, na época - costumava, no início da carreira, ficar treinando por conta própria um tempo a mais que os companheiros, aperfeiçoando fundamentos do futebol que, segundo ele, ainda precisava dominar.

Na Literatura da Realidade, um dos fundamentos é contar histórias. O autor da narrativa deve organizar a mensagem de modo atraente, fazendo o texto fluir como uma música envolvente. Mas como é mesmo que se aprende o fundamento de qualquer coisa?

Há três caminhos tradicionais. Na melhor das hipóteses, os três devem combinar-se na trajetória de aprendizado. Um primeiro caminho é o estudo formal, estruturado, em que o aprendiz utiliza prioritariamente a análise e a reflexão, assimilando por teorias o conteúdo conceitual do que deseja estudar. Outro caminho consiste no mergulho apreciativo, de prazer, para conquistar maestria na atividade desejada.

Na Literatura da Realidade, o fundamento contar história pode ser estimulado mediante a leitura de textos inspiradores. É por prazer, quase por simbiose com o texto e com a história contada, que o futuro narrador vai formando seu arsenal de elementos importantes para desenvolvimento do talento próprio. Nada melhor, então, do que a navegação livre por bons exemplos de todas as épocas e de todas as latitudes.

Textos inspiradores nascem de narrativas inspiradas. Como a deste trecho de Klester Cavalcanti em seu livro-reportagem "Direto da Selva - As Aventuras de Um Repórter na Amazônia", volume da coleção Vida de Repórter, da Geração Editorial:

Depois de quarenta minutos sobrevoando aquele tapete de chamas, aterrissamos em Pacaraima. "Os reservatórios de água já estão quase todos secos. Se não chover nos próximos 10 dias, ficaremos sem uma gota", nos disse o prefeito do município. A verdade é que muita gente já estava nessa situação. Encontramos várias famílias que estavam tomando banho e cozinhando na casa dos vizinhos que ainda tinham um pouco d'água. Os mais abastados - inclusive o prefeito - importavam água mineral do outro lado da fronteira. A todo instante, caminhões-pipa partiam de Santa Helena, na Venezuela, trazendo água e um pouco de esperança para os brasileiros de Pacaraima. Fomos até a fronteira, descobrir se a agonia já tinha ultrapassado a linha imaginária que separa o Brasil da Venezuela, cuja representação física é o marco

BV-8. Intrigantemente, os efeitos da queimada ainda não tinham chegado em Santa Helena e a água era abundante. Pelo menos foi o que nos garantiu o chefe do posto da fronteira. O Sol já começava a declinar por entre as nuvens de fumaça, quando resolvemos retornar a Boa Vista. Foram mais duas horas e meia de um vôo turbulento, sobre uma Amazônia fragilizada e indefesa. Observando aquelas colunas de fogo devorando vorazmente a maior floresta tropical do mundo, pensei: "Tão imensa e tão vulnerável". Já tinha ouvido, por zilhões de vezes, ambientalistas esbravejando em defesa da Amazônia, apregoando que, se não a preservássemos, poderíamos perder toda a sua incalculável riqueza. Pela primeira vez, porém, percebia que não era apenas ladainha de ecoxiita.

A narrativa da realidade constrói-se com informações concretas, mas também com licenças poéticas que formam imagens inesquecíveis, tradutoras de um mundo visto e sentido com intensidade pelo repórter. A imagem traduzida em narrativa é um elo de ligação decisivo entre o narrador e o leitor.

Como nesse feliz exemplo de "Um rio à procura de um país", de Cláudio Cerri, matéria publicada na edição de outubro de 2000 da revista "Globo Rural". A reportagem ganhou o Premio Nuevo Periodismo 2001 da Fundación Para Un Nuevo Periodismo Iberoamericano (www.fnpi.org), entidade criada por Gabriel García Márquez para manter viva a tradição da melhor narrativa jornalística.

Dizem que o amanhecer brasileiro capricha um pouco mais quando se aproxima do São Francisco. Dentro de minutos, essa preferência vai ser conferida. São quase 5h30, e o dia tateia o porto da cidade baiana de Barra, que fica a montante da barragem de Sobradinho, quase a metade do percurso entre a nascente mineira e a foz, na divisa de Sergipe com Alagoas. Uma canoa se antecipa e inaugura o rio numa síntese inesperada de ruptura e integração. O remo fatia o cetim adormecido da água e desliza o casco de jatobá pela brecha estreita de tempo que antecede a manhã.

A clareza e a precisão do texto resultam da nitidez com que a realidade observada forma um quadro claro na cabeça do narrador. A observação atenta dos detalhes, assim como a percepção do panorama global, integrador de tudo o que foi observado, permitindo inferências importantes, são qualidades indispensáveis para o repórter. Uma boa narrativa tem que ter um fio condutor atrelado ao tema que é a razão de ser de uma boa história.

Outro exemplo. Na coletânea "Literary Journalism" (Nova York: Ballantine Books), organizada por Norman Sims e Mark Kramer, a jornalista norte-americana Jane Kramer coloca como centro de sua matéria, intitulada "Fernande Pelletier", o impacto dramático que a globalização e o Mercado Comum Europeu estão tendo sobre os fazendeiros franceses, até há pouco acostumados ao modo tradicional de cultivo da terra. Para contrastar a mudança dos tempos, Jane situa como protagonista Fernande, uma fazendeira à moda antiga que luta pela sobrevivência num mundo em rápida mutação.

Hoje em Sainte-Lucie, os fazendeiros chamam-se "cultivateurs" e se referem às suas fazendas não como fazendas, mas como "exploitations agricoles" e são principalmente os fazendeiros jovens - que freqüentam escolas agrícolas em lugares como Périgueux, ou até mesmo Limoges, e fazem amizades com moças e rapazes da cidade e falam de voltar para casa como um "retorno à terra" - que usam a palavra "camponês." Eles dizem, "nous, les paysans" do mesmo modo que os parisienses dizem "nous, les intellectuels". Há dois ou três fazendeiros jovens começando em Sainte-Lucie-le-Pont. Eles pedem conselhos a Fernande, assim como seus pais pediam conselhos a M.Tricart, e quando falam com entusiasmo de

"ecologia" e "cultivo natural", isso agrada Fernande, porque ela sabe que eles estão de fato falando do tipo de cultivo que todo o mundo tem que fazer hoje em dia para continuar vivo. Ela se preocupa com seu filho, Maurice, que agora tem 25 anos, mas ele não tem o entusiasmo, o sentido de começar uma aventura que esses fazendeiros jovens têm. Ela pensa que um fazendeiro deve começar a vida cheio de entusiasmo e emoção, porque é isso que proverá as memórias que o sustentarão mais tarde na vida.

Disse que há três caminhos clássicos para o desenvolvimento do talento em contar histórias dentro da Literatura da Realidade. Certo? Sim, mas só falei de dois até agora. O terceiro é o exercício da prática. Uma variante disso é tão antiga quanto a histórica tradição do sistema mestre-aprendiz na Europa medieval. Para aprender um ofício, o aprendiz auxiliava o mestre, imitava seu estilo.

Curioso por compreender as fontes inspiradoras e as raízes de Gabriel García Márquez, incluí uma visita à sua cidade natal e uma longa conversa com um de seus amigos mais íntimos, Gérman Vargas Cantillo, em meu livro "Colômbia Espelho América" (Perspectiva/Edusp). Gérman contou-me que quando jovens, ele, García Márquez e mais dois outros talentos promissores - Alvaro Cepeda e Alfonso Fuenmayor - liam os escritores famosos da época, como John dos Passos, John Steinbeck, Ernest Hemingway. Além de inspiração, procuravam descobrir a carpintaria literária desses grandes nomes. Como exercício, García Márquez escrevia contos tentando reproduzir o estilo de William Faulkner.

Nada demais. Contanto que a reprodução de estilo, em forma de exercício, fique nesse nível, servindo ao propósito apenas de desenvolvimento da sua própria forma de narrar, seu próprio estilo.

* Jornalista. Doutor em Ciências da Comunicação. Professor da ECA-USP.

Contato

  • Fone: +55 (11) 2367 9397

Google+

Compartilhe!

FacebookMySpaceTwitterDiggDeliciousStumbleuponGoogle BookmarksRedditNewsvineTechnoratiLinkedinMixxRSS FeedPinterest

Copyright © edvaldopereiralima.com.br +55 (11)  2367 9397 - E-mail: ed.pl@terra.com.br - Todos os Direitos Reservados.
Jornalismo Literário | Jornalismo Narrativo