Infância e adolescência entre muros

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Nathalia Maciel Corsi

Jornalista, pós-graduanda no Curso de Pós-Gradação em Jornalismo Literário, epl, em São Paulo, turma 2015. Reside em Londrina, Paraná, onde está cursando Mestrado em Comunicação na Universidade Estadual de Londrina. natmcorsi@hotmail.com

Foto: Nathalia Maciel Corsi / Desenho: Freepik

Foto: Nathalia Maciel Corsi / Desenho: Freepik

Na pacata Rua Eleonor Roosevelt há uma grande extensão de muros. Do lado direito, algumas casas e ruas que a cruzam. Do esquerdo, apenas muros. O respiro entre os paredões de concreto é um portão azul, sem grades, de ferro maciço. Nele, uma pequena abertura retangular convida quem está do lado de fora a tentar observar o interior. Ainda que, abaixando-se e aproximando o rosto, seja possível ver um quintal e uma casa amarela comprida o suficiente para comportar cinco janelas na lateral, não dá pra perceber a agitação que existe lá dentro.

Bebês, crianças e adolescentes moram ali. São 48 vagas para abrigados no Lar Anália Franco de Londrina. O agito, no entanto, é mais presente na mente de cada um deles, do que nas bagunças naturais dessa fase da vida. Brincam, brigam, choram, esperneiam, xingam, pedem colo, revoltam-se, gargalham, como qualquer criança e adolescente, mas seu barulho não é ouvido por quase ninguém. São crianças e adolescentes silenciados pelas circunstâncias que os levaram a viver entre muros. Com poucos anos vividos, carregam consigo uma bagagem pesada demais, mesmo para um adulto.

A equipe técnica do local malabariza tarefas administrativas, relatórios, cursos de capacitação, organização de rotinas e imprevistos cotidianos para oferecer assistência e cuidado a cada um dos que sofreram abandono ou foram afastados da família pela Justiça. Não supre, porém, convívio e vínculo familiares preconizadospela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA. Por isso, a lei determina que o abrigamento seja provisório e a permanência não ultrapasse dois anos. A realidade é que, em muitos casos, quando o retorno à família biológica e a colocação em uma família adotiva são impossibilitados, o abrigo acaba sendo um lar definitivo até o fim da adolescência.

O abrigo Anália Franco é composto por uma casa sede e quatro casas lares. As casas lares foram pensadas para se assemelharem o máximo possível a uma casa de família. Há quatro mães sociais para cada uma, que se revezam em turnos. As construções seguem o mesmo padrão. Uma pequena varanda com tanque e roupas estendidas no varal precede a entrada. Passando pela porta, repara-se que a cozinha é organizadinha, com armários brancos de puxadores prata e uma mesa de jantar ao centro, coberta com uma toalha estampada. Depois, chega-se à sala, onde dois sofás estão dispostos frente a um televisor de plasma. A mobília dos quartos varia entre camas, berços e armários, conforme a necessidade de seus ocupantes.

Enquanto visito o espaço, Letícia dorme em um dos quartos. São quase três horas da tarde e ela descansa após ter trabalhado durante a manhã. Sobre a cama, espalham-se os seus longos cabelos negros e quase uma dúzia de papeis de balas de iogurte chupadas há pouco, uma atrás da outra. É uma menina. Uma menina forçada a ser gente grande pela data de nascimento, que denuncia 18 anos completos. O abrigo não é mais lugar para ela. O que a chegada da maioridade muda na vida da maioria das pessoas? A idade atingida cobra de Letícia a independência.

Só que o dinheirinho que recebe no trabalho, conseguido através da Guarda Mirim, não dá para se manter sozinha. Levar o irmão mais novo junto, como gostaria, muito menos. E levar para onde se ela nem sabe para onde ir? Disseram que a COHAB dá preferência a casos como o dela para se conseguir uma casa via prefeitura, mas essa opção já foi buscada e até agora nada de resposta positiva. Talvez o próprio trabalho como menor aprendiz também não seja mais para ela. Padrinho afetivo, desses que apoiam, levam para passear e às vezes ajudam financeiramente, ela não tem. Muito velha pra ter. Membros da rede socioassistencial do município que a acompanham estão tentando ajudar e pensar em alternativas. Não há nada certo. Não existe um encaminhamento específico. Quantos nãos. Quanta incerteza. Quanta ansiedade. Meu Deus! Velando a soneca, aparentemente tranquila, não ouso acordá-la. Muito mais do que não invadir seu sono, decido por não despertar seu sofrimento.

Letícia não é a única. Só em Londrina, são cinco os adolescentes abrigados que atingiram ou completarão a maioridade neste ano de 2015. Ao chegaram aos 18, deixam de ser número no Cadastro Nacional da Adoção, mas a expectativa de fazer parte de uma nova família deixa de existir muito tempo antes disso. Sabem que quanto mais velhos, ainda que sejam apenas crianças e adolescentes, menores as chances de serem adotados. Isso porque, dentre os perfis escolhidos pelos pretendentes à adoção no país, 88% correspondem a crianças que estão na faixa de zero a cinco anos. O dado informado pelo Conselho Nacional de Justiça representa a preferência de 30233 habilitados, de um total de 34121, e revela a resistência dos brasileiros em relação à chamada adoção tardia, termo baseado no desenvolvimento infantil. Crianças a partir dos três anos de idade já são consideradas casos de adoção tardia, porque desenvolveram autonomia parcial: andam, falam, não usam fralda, comem alimentos sólidos. Não são mais bebês.

Ao pensarem nas crianças crescidinhas, muitos dos futuros pais adotivos alimentam o receio de ter que lidar com traumas e lembranças insuperáveis da família biológica, vícios incorrigíveis e adaptação conflituosa. Até a cisma de que a genética pode ser “ruim” passa pela cabeça. Pensamentos infundados fazem crianças e adolescentes reféns da sua história e consanguinidade. São tachados como incapazes de incorporar novos hábitos e valores. Quando se trata da adoção, a sociedade tende a focalizar desafios, incertezas e aspectos negativos, como se estes não estivessem também presentes na criação e educação de filhos biológicos. Que loucura adotar um piá desse tamanho! Você nem sabe de onde veio. Vai criar filho dos outros? E se ele for um marginalzinho? Você fica investindo dinheiro nessas crianças, quando eles crescerem vão embora pra junto do pai e da mãe deles de verdade. Nossa, admiro muito você, eu não teria coragem. Parabéns! Adotar não é fazer caridade. É preciso vocação para a maternidade e/ou paternidade e decisão firme para transformar e superar obstáculos, colocando o amor sempre à frente.

Continua.

*Os nomes das crianças e adolescentes abrigados foram substituídos nesta reportagem para proteger sua identidade.

Infância e adolescência entre muros - Nathalia Corsi - Capítulo 1
Infância e adolescência entre muros - Nathalia Corsi - Capítulo 2
Infância e adolescência entre muros - Nathalia Corsi - Capítulo 3
Infância e adolescência entre muros - Nathalia Corsi - Capítulo 4
Infância e adolescência entre muros - Nathalia Corsi - Capítulo 5
Infância e adolescência entre muros - Nathalia Corsi - Capítulo 6
Infância e adolescência entre muros - Nathalia Corsi - Capítulo 7
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Infância e adolescência entre muros - Nathalia Corsi - Capítulo 9

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