Jornalismo Literário na Veia

Aqui, narrativas produzidas por alunos e ex alunos deste Curso de Pós-Graduação em JL, assim como notícias de seus projetos e iniciativas editoriais.  Também conteúdos extras de interesse do campo do JL.

Infância e adolescência entre muros

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Nathalia Maciel Corsi

Um ato de amor recíproco: experiências de adoção tardia - parte 2

JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 8 Foto 1 003

Ellen, Willian, Samuel e Julia: o processo de adoção de Samuel ainda corre na Justiça.
Foto: arquivo pessoal de Ellen Tomazeti.

- Oh, esses aqui são teu pai e tua mãe. Eles vão vir amanhã te buscar.

Não dá pra imaginar o que passou pela cabecinha de Samuel quando viu grudada na geladeira do abrigo aquela foto impressa em preto e branco num sulfite. Ninguém disse a ele antes que teria pai e mãe novos. Os irmãos já estavam acomodados em famílias adotivas. Haviam sido separados e ele não entendia o porquê. Sentia falta especialmente da irmã, Julia, que tinha idade mais próxima da sua.

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Infância e adolescência entre muros

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Nathalia Maciel Corsi

Um ato de amor recíproco: experiências de adoção tardia - parte 3

JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 9 Foto 1 003

Tiago e Kívia.

Foto: Laercio Schneider.

Kívia e Tiago, quando foram adotados, com sete e nove anos, não se desgrudavam. Tinha na casa um quarto para cada um. Eles se sentiam mais seguros juntos. Depois de uns 15 dias, Tiago passou a dormir sozinho, mas não conseguia dormir à noite. Não pregava o olho por medo de ser reabrigado diante do mal comportamento da irmã. Talvez alguém tenha incutido esse temor no próprio abrigo. Se você não se comportar, eles vão te devolver. O sono tranquilo só veio quando a mãe percebeu e teve uma conversa franca com ele, afirmando que os dois eram filhos que ela amava muito e não ia devolver de jeito nenhum.

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‘A vida que me criou assim’
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Laila Braghero Vicente

Jornalista, pós-graduanda no Curso de Pós-Graduação em JL, epl, turma 2015. Atualmente é repórter do jornal O Semanário, de Rafard (SP), e fotógrafa freelancer. Em 2013, recebeu o prêmio de melhor jornal mural da Expocom Nacional, e melhor projeto multimídia entre os TCCs de Jornalismo da Unimep, em Piracicaba (SP), no 25º Prêmio Losso Netto de Jornalismo.
lailabraghero@gmail.com

A vida que me criou assimSentada em um pedaço de varvito, mais conhecido como pedra de Itu e ex-integrante da antiga calçada, Virginia contempla uma folha caída no chão entre tantas outras no jardim da frente da casa cor-de-rosa. Havia me levado até ali para mostrar o local onde costuma passar quase todas as tardes observando o movimento da Rua General Osório, no Centro de Capivari (SP). “Eu vejo alguém que passa, que olha, que apanha flor. Eles não me veem.”

O casarão é tão antigo quanto a atual proprietária, que chegou à cidade em 1949. Sabe-se que foi comprado pela dona anterior, dona Jovita, em 1908. Já foi menor, porém sempre com a mesma formosura. Tem até livro sobre o lugar – A casa de Capivari –, escrito por toda a família em 2008. Os mais novos na época deixaram suas contribuições em desenhos.

Nesse domingo, 23 de agosto de 2015, com a bengala na mão esquerda, Virginia tenta puxar para si a folha amarela enquanto fala, como se quisesse tirá-la do caminho, protegê-la de algum par de pés calçados e assassinos. Recorda-se do ginásio e de como aquele órgão resumido a clorofila era importante para a professora de Biologia Branca do Canto e Melo, descendente da Marquesa de Santos. Hoje, ela crê que parte das instituições já não dá muita relevância ao jeito lúdico de ensinar.

“A gente vivia procurando folhas de vários tipos. Essa, por exemplo, é bem diferente. Parece uma seta. A gente ia onde tinha jardim pegar folhas para fazer o herbário. Agora tem de todo jeito aí e não vem ninguém buscar. Ninguém se interessa.” Essa professora, conta, também deu a ela aulas de Francês e História. “Ela deu aula em várias épocas. Era muito inteligente. Quando fez concurso para ser professora, havia gente que foi especialmente para assistir a prova oral dela.”

Virginia Bastos de Mattos gosta de falar dos tempos da escola. Integrou a turma de 1925 da Caetano de Campose se formou em Filosofia pela Faculdade de São Bento, ambas em São Paulo. “Era a Escola Normal da Praça, como eles chamavam antigamente. Depois fui à Faculdade de São Bento, que era particular, ali mesmo, bem no Centro, no Largo de São Bento. Tem o colégio e em cima a faculdade.”

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‘A vida que me criou assim’

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Laila Braghero Vicente

 

A casa e ela

Laila 3 virginia bastos de mattos 2Além de professora, Virginia também é escritora, ainda que não goste muito do título, tampouco de ser chamada de autora. Em 1986, ajudou o marido na preparação final do livro sobre o capivariano Rodrigues de Abreu, intitulado Vida, paixão e poesia de Rodrigues Abreu. Dezoito anos depois, coordenou a publicação de A ronda nas ruas: a história nas ruas de Capivari, por meio do Movimento Capivari Solidário. A obra contém dados históricos de Capivari contados a partir dos nomes das primeiras ruas.

E, no mesmo ano, publicou Léo Vaz: o cético e sorridente caipira de Capivari, jornalista que, entre outros periódicos, dedicou mais de 30 anos de sua carreira ao jornal O Estado de S. Paulo, como redator, secretário e, por último, diretor, durante o exílio de Julio de Mesquita Filho. Hoje, Virginia disse que não escreve mais. “Eu escrevia muitas cartas. Tinha muitos parentes. Mas, com a internet e o telefone com mais facilidade fui largando.”

Os encontros do Movimento Capivari Solidário, que eram semanais, quase não ocorrem mais. “Eles estão se espaçando muito”, desde que um dos fundadores e então presidente, Waldemar Thomazine, morreu, no ano passado. “Eu viajava muito. Agora não tenho compromisso nenhum. Eu espero que venham na minha casa. Quase todo fim de semana eu tenho alguém. Eu gosto que venham.”

Embora tenha uma família grande, Virginia mora sozinha. “Eles não têm condições de morar aqui. Tiveram de sair por causa do trabalho, alguns para terminar a faculdade”, justifica. “Uns vêm me ver com mais frequência. Outros são mais difíceis de sair. Todo mundo fica tão cheio de serviço.” Durante a semana, almoça com Railda. “Eu gosto dela”, sorri.

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‘A vida que me criou assim’

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Laila Braghero Vicente

 

Macarronada

No domingo, os familiares de dona Virginia chegaram quando ainda estávamos no jardim. Otavio parou de molhar as vistosas camélias brancas para tirar a corrente do portão de ferro, também branco. Um dos netos, o analista de sistemas Rafael, 42, filho de Carlos Alberto, chegara com a esposa Roberta, da mesma idade, e com o filho mais novo deles, João Pedro, 13.

LaILA 4 virginia bastos de mattos 4

Ouço três portas batendo e um casal de vozes dizendo “olá”. Me levanto para cumprimentá-los, enquanto Virginia continua sentada na pedra de Itu.

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‘A vida que me criou assim’

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Laila Braghero Vicente

 

Doce de abóbora

lAILA 6 virginia bastos de mattosA comida começou a ser degustada após um brinde à saúde e ao jornalismo. Na pauta da refeição, filmes, ciclovias e ciclofaixas, transporte público, bons lugares para apreciar rodízios de pizza, Jedi’s Burger (nova lanchonete temática inspirada no Star Wars), São Paulo. Todos os que estavam na casa naquele dia moram na capital. E, como eles mesmos disseram, se veem mais em Capivari do que por lá. Virginia seguia silenciosa.

Falavam sobre o Templo de Salomão, Eduardo Cunha e os falsos profetas quando a voz suave e meio rouca da senhora rompeu o tilintar dos talheres. Olhando a tigela com doce de abóbora na mesa, feito por ela com a ajuda de Otavio, começou a contar sobre quando passava pela casa de umas amigas com a irmã, depois da escola, e eram convidadas a entrar.

“Era perto de casa. Elas diziam: ‘vem comer doce de abóbora. Vamos entrar pra gente conversar mais um pouco’. Um dia, minha irmã e eu aceitamos e fomos. E tinha doce de abóbora, mas era ruim. A primeira vez nós já achamos. A segunda foi ainda pior. Não passamos mais lá até acabar esse doce. Elas eram amáveis, mas não sabiam fazer”, finaliza, em meio às risadas.

Após o almoço, eu guardava minhas coisas para ir embora quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, o filho de Virginia, Antonio Carlos, 64, pede para falar comigo. A conversa foi breve, mas muito rica. Em poucos minutos, o paulistano, que voltou a morar em São Paulo depois de adulto, resumiu coisas que “tinha certeza que mamãe não ia se lembrar de falar”.

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JL na Veia - "Calle 2" no Ar!

Caros:

Criação de dois pós-graduados em JL, Ana Magalhães e Guilherme Soares, e tendo na equipe editorial também  vários outros  pós-graduados JL,   já está no ar, desde hoje, a revista digital “Calle 2” , com foco na América Latina, procurando diminuir também nossa estranheza com relação aos vizinhos.   O estilo narrativo preferencial da publicação é o JL. Faço parte do Conselho Editorial.

Mais info no release anexo.

Parabéns à Ana e Guilherme, assim como a seus sócios empreendedores, e a todos da comunidade JL que estão integrando a equipe editorial! 

Vida longa, “Calle 2!”

www.calle2.com

https://www.facebook.com/revistacalle2/

Abs,

Ed

docxRELEASE_CALLE2.25.docx

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O Prêmio de Beatriz Jucá

Beatriz Jucá, pós-graduada da turma 2013 – São Paulo – do Curso de Pós-Graduação em JL,  acaba de conquistar um prêmio nacional de reportagem com uma série de matérias produzidas para o jornal onde trabalha, "Diário do Nordeste".

A série, escrita e editada em estilo de JL, incorpora nossa proposta conceitual de "narrativas de transformação": reportagens que abordam questões difíceis da nossa complicada civilização contemporânea masque vão além da denúncia ou do conteúdo pesado, representativo da parte sombria ou negativa da sociedade e do ser humano; indo além do padrão comum do jornalismo convencional, exploram possibilidades de visão para além desse nível sombrio.

Parabéns merecidíssimos à Beatriz, voz em ascensão da novíssima geração de escritores da vida real deste país, ao jornal, que endossou a opção narrativa da repórter, aos organizadores do prêmio, que souberam reconhecer o valor de uma abordagem diferenciada como esta.

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O NOBEL DE SVETLANA ALEXIEVICH

A outorga do Prêmio Nobel de Literatura 2015 a Svetlana Alexievich, anunciada há pouco, tem um significado histórico para todo o campo do Jornalismo Literário. É a primeira vez que esse reconhecimento de altíssimo prestígio mundial vai para profissional cuja carreira está centrada, essencialmente, na produção de JL. Pouco importa se, a rigor, dêem ao seu trabalho outro nome, como jornalismo narrativo, ou simplesmente jornalismo de boa qualidade. O fato é que Svetlana, desconhecida do público brasileiro por falta de publicações de suas obras por aqui, é, em essência, autora que encarna o espírito central da literatura da realidade e demonstra, em alto e bom som, a universalidade do JL, bem como a fortaleza dos princípios fundamentais que regem sua prática em todas as partes do mundo. É sintómatico, igualmente, que a Academia do Nobel finalmente tenha admitido implicitamente o valor da literatura narrativa de não ficção, ajudando a estimular o olhar ainda tímido e excessivamente reservado de muita gente da área convencional de Letras e Literatura a se abrir para a incorporação dessa excepcional tradição da produção narrativa de histórias reais ao grande escopo cultural do universo literário da civilização contemporânea.

Navegando nesse oceano vasto do JL com seu estilo vigoroso próprio - a voz autoral é uma das marcas dessa tradição -, Svetlana tem colocado em evidência, nas suas obras, as histórias de anônimos ignorados pelo "main stream" das sociedades em que vivem e que formam o mapa geográfico e histórico do seu quadro temático de fundo, o mundo soviético e pós das regiões e povos afetados pelo poder político oriundo de Moscou. Surpreende o leitor trazendo para foco a ignorada e trágica realidade das crianças atropeladas pelo vendaval destruidor da guerra; questões dolorosas das mulheres no mundo em rápida mutação - nem sempre para melhor -; os soldados vítimas da crueza de seu império-patrão; os cidadãos comuns desenraizados brutalmente pelo maior acidente industrial da humanidade - o caso de Chernobyl -, tratados como dores de cabeça indesejáveis por um Estado - lá como aqui e em todas as partes - sempre a serviço de seus próprios interesses bestiais, contra os indivíduos e a dignidade do ser.

A seguir, dois brindes deste Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, epl: traduções livres de dois excertos de obras de Svetlana. Revelam um pouco do propósito narrativo dessa extraordinária, valorosa e destemida escritora da vida real, sinalizam seu modo de trabalho, onde se insere a absorção de recursos da História Oral.

 

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