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Histórias de Vida  em  Jornalismo Literário Avançado

 

Edvaldo Pereira Lima

 

 

Resumo

Artigo que combina um tom de crônica histórica, definições conceituais, reflexão filosófica e considerações epistemológicas, além do relato de desenvolvimento de uma proposta pertinente, coloca em discussão os perfis, o jornalismo literário e as histórias de vida. Em complemento, destaca a ligação do livro-reportagem com esses três outros temas.

 

   No aspecto histórico, levanta exemplos do desenvolvimento do gênero perfil, a partir da experiência da publicação periódica que o formatou e disseminou para o mundo, The New Yorker. Situa a produção da revista Realidade, exemplifica o emprego dessas formas narrativas por profissionais no Brasil e nos Estados Unidos. Destaca a produção acadêmica da Escola de Comunicações e Artes da USP em torno dessa constelação temática.  

   Lança indagações para o futuro, sugerindo uma função nobre para as histórias de vida nesse momento dramático de necessária transformação da consciência humana.

   No agora já remoto ano de 1950, a revista norte-americana The New Yorker publica uma matéria antológica da notável repórter Lillian Ross. O texto ilustra com brilho a consolidação de um gênero jornalístico especialmente desafiador, e por isso mesmo empolgante. Lillian traça um sofisticado perfil do jornalista e escritor       Ernest Hemingway, um profissional que deixou registradas na história contribuições de vulto nessas duas esferas de expressão pública, a literatura e o jornalismo, que muitas vezes se digladiam, outras menos tantas combinam-se à maravilha, como primos em neurótica relação de amor e ódio.   Um trecho da matéria, em tradução livre minha, pontua tanto o talento da narradora quanto a capacidade de elucidação compreensiva sobre o ser humano que o bom perfil pode proporcionar:

Seu novo livro
começou como conto. “Mas depois não pude parar. Transformou-se logo em romance”, disse. “É assim que começaram todos os meus romances. Quando eu tinha 25 anos, lia os romances de Somersault Maugham e de Stephen St. Vixen Benét”. Riu roucamente. “Eles escreviam romances e eu tinha vergonha que ainda não havia escrito nenhum. Então escrevi “The Sun” quando tinha 27 anos, e o escrevi em seis semanas, começando no meu aniversário, 21 de julho, em Valência, e terminando em 6 de setembro, em Paris. Mas o romance era de fato ruim e reescrevêlo levou quase cinco meses. Talvez isso encoraje escritores jovens, de modo que não precisem pedir conselhos a seus psicanalistas. Um analista escreveu-me, certa vez, O que aprendi dos psicanalistas? Respondi, Muito pouco, mas gostaria que eles tivessem apreendido o máximo que pudessem entender dos meus livros. Você nunca vê um lutador de boxe que atua em contra-ataque tomar a iniciativa da luta. Nunca tome a iniciativa do ataque se o seu oponente é do estilo que ataca, a não ser que possa sobrepujá-lo. Encurrale-o no canto do ringue, se puder, e agüente toda as pancadas que ele tiver para dar, para que você possa entrar na guarda dele. Abaixe-se do cruzado. Bloqueie um gancho. E contra-ataque um “jab” com tudo o que você for capaz. É a lição de Papa sobre os duramente aprendidos fatos da vida”. 1

A maestria de Lillian, trazendo à tona iluminações preciosas sobre o protagonista de sua narrativa, exemplifica o nível de qualidade que o perfil já demonstra nessa época, cerca de três décadas depois de surgir no jornalismo como gênero próprio, burilado e lapidado como diamante na própria New Yorker . Ninguém sabe ao certo quando aparece pela primeira vez, mas é fato aceito, na comunidade jornalística dos Estados Unidos, que foi mesmo essa revista quem deu ao gênero contorno próprio, lugar de honra no universo das categorias das mensagens jornalísticas. Faz parte do ideário do jornalismo uma desejável busca pela humanização. Em nenhum outro espaço do seu universo de possibilidades esse ideal é melhor cultivado do que no perfil, matéria de caráter biográfico que retrata concisamente momentos de uma vida, através de entrevistas, descrições, narrações de episódios marcantes.

O foco, aqui, é sobre o perfil na sua concepção original e plena. Nada a ver com a depauperação e distorção do gênero que vemos costumeiramente presentes na imprensa de nossos dias, salvo honrosas exceções.

Uma das causas dessa vulgarização é o encaixe forçado do gênero na modalidade de jornalismo que não tem condições de abrigá-lo com todas as virtudes potenciais que apresenta. O espaço por excelência do perfil é o jornalismo literário, escola de prática da reportagem e do ensaio jornalístico que se inspira em procedimentos de captação e narrrativa da literatura para relatar o real. Pouco discutido nos meios acadêmicos, existente à margem da modalidade mais conhecida que é a escola que chamo de jornalismo convencional - a das fórmulas rígidas de estruturação de mensagens -, o jornalismo literário proporciona um olhar mais amplo e profundo sobre a realidade. Dentro dele, os perfis encontram condições adequadas para que o jornalismo cumpra uma tarefa muito esquecida nos dias de hoje, especialmente na imprensa brasileira: ajudar-nos a entender quem somos, através do olhar de espelho compreensivo sobre os nossos semelhantes, célebres ou anônimos.

     A trajetória histórica do perfil, desde quando The New Yorker passou a investir honrosamente no gênero, caminha em paralelo e em sintonia mesclada com o jornalismo literário. A modalidade ganhou força quando jornalistas mais atentos tiveram a humildade de descobrir na história da literatura escritores que faziam verdadeiros trabalhos de repórteres, antes mesmo da reportagem ganhar o formato pelo qual a conhecemos, hoje em dia.     Tom Wolfe, um dos ilustres representantes dessa corrente, destaca o legado de escritores do movimento conhecido por realismo social, como Charles Dickens e Balzac, que pesquisavam apuradamente, in loco, o universo dos personagens e cenários que lhes inspiravam na sua criação literária2. Segue-se, daí, que repórteres atentos descubriram na literatura recursos técnicos de captação e expressão que respondiam melhor aos desafios de narrar o real do que as fórmulas engessantes do jornalismo convencional.

     Muitos desses profissionais abertos ao casamento entre as duas formas de relato – a literatura e o jornalismo – da contemporaneidade impulsionaram, em acréscimo, o desenvolvimento do livro-reportagem, esse veículo de comunicação não periódica que abriga conteúdos jornalísticos não contemplados ou contemplados parcialmente pela mídia tradicional. Assim, perfil, jornalismo literário e livro-reportagem são três ingredientes de uma constelação diferenciada do universo jornalístico. Extendem o papel da mídia tradicional, complementam, noutra direção, as funções do jornalismo, enquanto sistema moderno de expressão pública do conhecimento contemporâneo. Permitem um aprofundamento impossível ou difícil de ser concretizado nas formas tradicionais.

Mas voltemos o foco central para o perfil. Com o passar do tempo, o gênero evolui, mantendo presença marcante em publicações periódicas abertas ao jornalismo mais arejado e em livros-reportagem. Sua presença é visível no jornalismo norte-americano contemporâneo. Não só grandes nomes, mas profissionais da nova geração fazem a tradição avançar. Um exemplo recente é a delicada, sutil abertura de uma matéria de Joan Acocella, publicada em 1998 em The New Yorker:

   Chove, e Mikhail Baryshnikov está de pé num quintal de Riga, a capital da Latívia, apontando para duas janelas de canto, num velho prédio de estuque que provavelmente um dia fora amarelo. Com ele estão sua companheira, Lisa Rinehart, ex-dançarina do American Ballet Theatre, e dois de seus filhos – Peter, de oito anos, e Aleksandra, ou Shura, de dezesseis. Ele está mostrando a casa onde cresceu. “É um apartamento comunal soviético”, diz para as crianças. “Em um apartamento, cinco famílias. Mamãe e papai têm uma sala no canto.    Vêem?          A janela grande.           Mamãe e papai dormem lá, a gente come lá, a mesa está lá.Tem o outro comodozinho, apenas duas camas, para o meio-irmão, Vladimir, e para mim. Nos outros cômodos, outras pessoas, outras famílias. Para quinze, dezesseis pessoas, uma única cozinha, uma privada, um banheiro, sala com banheira. Mas não tem água quente para o banho. Às terças e sábados, Vladimir e eu vamos com papai ao banho público”.

Eu abro a porta da frente do prédio e olho para dentro do corredor escuro. “Vamos subir”, sugiro. “Não”, responde. “Não posso”. Faz mais de um quarto de século desde que ele esteve aqui pela última vez. 3

O texto descortina uma realidade que diz tudo por si mesma. O narrador não precisa forçar o entendimento do leitor com reflexões. Basta exercer sua nobre função de      repórter arguto, atento. Uma qualidade cujo olhar não se limita a celebridades. Pousa também com curiosidade, com empatia, afetuosamente, sobre figuras anônimas. E não apenas indivíduos. Abarca no escaneamento de compreensão da realidade grupos sociais inteiros. Como neste exemplo do mestre do gênero   Gay Talese, um dos grandes narradores do real em atividade nos Estados Unidos:

Eles chegam nas cidades dirigindo carrões, e vivem em quartos de aluguel mobiliados, e bebem uísque em armadilhas de urso, e paqueram mulheres que logo esquecerão. Ficam só um pouco, somente até que tenham construído a ponte; então vão embora, de novo para outra cidade, outra ponte, unindo tudo exceto suas vidas.

     Não possuem nenhum dos alicerces de suas pontes. São parte circo, parte ciganos – graciosos no ar, inquietos no chão; é como se a longa estrada lá embaixo carecesse da clara direção de uma luz de farol de oito polegadas cruzando o céu duzentos metros sobre o mar.

   Quando não há pontes para construir, eles constroém arranha-céus, ou rodovias, ou usinas hidroelétricas, ou qualquer coisa que lhes prometa um desafio - e horas extra. Eles irão a qualquer lugar, dirigirão mil quilômetros dia e noite para ser parte de uma nova febre de construção. Eles consideram as cidades que explodem em febre de construção irresistíveis. É por isso que são chamados de “os   febris”. 4

Talese conta que aprendeu a se interessar pelas histórias dos outros quando, menino, perambulava pela modesta alfaiataria do pai, imigrante calabrês residente numa cidadezinha de New Jersey, na Costa Leste dos Estados Unidos. Tanto o pai quanto a mãe – americana de origem italiana – tinham ouvidos sempre abertos, um ombro disponível para as amarguras e pequenas alegrias dos fregueses. O local era um espaço de desabafo para os clientes, um extraordinário palco de desfile de histórias humanas que faziam o jovem tímido encantar-se. Sua primeira lição foi ouvir com respeito, ouvir com interesse empático genuíno. A segunda foi valorizar as vidas das pessoas comuns, as que não encontram   lugar nas páginas dos jornais nem nas telas da televisão. E seu primeiro mentor foi a mãe. Mentora que não apenas ouvia as histórias das freguesas, mas as ajudavam a refletir sobre o que contavam, tentando fazê-las ganhar luz sobre seus próprios processos emocionais e de pensamento enquanto passavam pela experiência que relatavam. Um procedimento que se transformaria em marca registrada do estilo de Talese quando, anos depois, tornar-se-ia famoso pelos perfis que escreve5.

Na minha trajetória pessoal, o que me atraiu ao jornalismo foi a descoberta da grande-reportagem contextualizada e dos perfis inesquecíveis da revista Realidade. No fundo, também, um interesse pelas vidas das pessoas.

Permita-me o leitor ou a leitora um tom levemente autobiográfico, a partir deste ponto, como forma de apresentar o tema deste texto múltiplo, estruturado também com uma certa dose de crônica histórica, proposta conceitual, reflexão filosófica. .

Estamos falando do período 1966-1968, época em que, adolescente, vivendo    em Três Marias, às margens do Rio São Francisco, em Minas Gerais, sonho com um futuro mais amplo do que o meu horizonte imediato. Preparo-me, sem saber, para o destino de me aventurar sozinho para o exterior aos 17 anos. As páginas dos textos vibrantes da revista são um dos portões de acesso à imaginação ávida de percorrer mundo e povos.  

Ali desfilam Roberto Carlos, num momento de angústia entre o fim da Jovem Guarda e a indagação do que fazer de sua carreira, Muhammad Ali militante do movimento mulçumano norte-americano, Arrelia, o palhaço que há décadas é a alegria das crianças. Mas também estão presentes a parteira do interior, o mineiro de carvão de Santa Catarina, o matador de gado de Feira de Santana, o bóia-fria do oeste de São Paulo, o salineiro do Rio Grande do Norte. Roberto Freire, Narciso Kalili, Oriana Fallaci, Hamilton Almeida, José Carlos Marão, José Hamilton Ribeiro expõem retratos primorosos de um Brasil vivo, pulsante, de um mundo efervescente.

Anos depois, já professor da USP, tomo o meu interesse pelo jornalismo de profundidade para desenvolver uma Tese de Doutorado6 sobre o livro-reportagem, abarcando, como tema complementar, a proposta do jornalismo literário. A amplitude temática da Tese, por natureza uma proposta aberta à visão multidisciplinar, faz-me descobrir que os perfis são integrantes de uma família de modalidades de expressão, todas presentes no jornalismo contemporâneo, todas mantendo um grau de parentesco entre elas. Apenas os perfis parecem ser fenômenos exclusivamente jornalísticos, enquanto as histórias de vida e as biografias encontram versões próprias de formatação dentro do jornalismo e formatos diferenciados noutros setores, como na literatura de não-ficção praticada por outros profissionais, que não jornalistas, na sociologia, na psicologia, na história, na antropologia. 6       As histórias de vida são narrativas centradas em indivíduos ou grupos sociais cujo objetivo é elucidar situações e questões bem demarcadas, prioritariamente interessadas em focalizar a participação humana no desenrolar da história contemporânea em movimento. Podem existir exclusivamente em torno da figura ou das figuras humanas selecionadas como eixo condutor da narrativa ou podem gravitar apenas em torno dos protagonistas, colocando em primeiro plano uma busca de compreensão contextual de uma situação. Nesse segundo caso, as histórias de vida apenascomplementam , ilustram o tema que está sendo costurado pela narrativa. Como neste ótimo exemplo brasileiro:

Me mandaram sair prá fora. Apanhei a lamparina,botei em cima da mesa, abri a porta e botei o pé, assim prá fora. Tinha um sargento e outro sujeito da polícia, um de um lado da porta, outro do outro lado. Eu tava só de calçãozinho, e cumprimentei eles. Aí o sargento disse:

- Que boa noite o que, seu terrorista!
E eu disse:   - Ter...

E foi plan aqui no meu peito, que eu fui bater lá longe na parede. Aí eles me pegaram pelas mãos e pelos pés e me sacudiram.Isso já foi em 74. Sei que me deram um monte de pancada, me jogaram lá dentro da C-10 e foram buscar outros. Não levavam a gente prá base, não.Foram direitinho prá mata como quem vai matar terrorista. Isso era três horas da manhã e foram soltar a gente às duas e meia da tarde, sem tomar uma chícara de café, nem dar uma pitadinha sequer num fumo. Era pau comendo solto. Me amarraram com as mãos cruzadas com os pés, passaram uma vara no meio e me penduraram de cabeça prá baixo. Volta e meia vinha um e dava botinada nas costas que a gente chegava a dar a volta por cima. Depois chegava outro e dava duas bofetadas de mãos juntas no ouvido que faziam tóim

Queriam que a gente dissesse que tava sustentando terrorista. Agora, veja o senhor,a gente mal tinha prá forrar o estômago e ia lá ter jeito de sustentar os outros. E eu dizia prá eles:

- Mata logo esse véio, não judia mais não! O senhor não diz que nós somo terrorista? Então mata logo, mas não judia.7

A intensidade dramática, perceptível nesse exemplo, é uma qualidade desejável de textos dessa natureza.

No meu entender, os perfis são uma espécie de história de vida cuja proposta é desenhar o retrato de um momento selecionado, atual,  do(s)    protagonista(s). Naturalmente, elementos do passado surgem aqui e ali para contextualizar o presente, tal como esboços do futuro aparecem, ocasionalmente. Mas o foco central da narrativa é o presente.

Também entendo que as histórias de vida, fora do padrão dos perfis, podem centrar baterias em episódios escolhidos da trajetória humana do protagonista ou amplificar essa trajetória, buscando o entendimento de uma vida inteira. Nesse último caso, já passamos com fluidez para o território das biografias, muitas das quais, hoje em dia, produzidas por jornalistas, no Brasil, em livros-reportagem de grande envergadura, como são os trabalhos de Ruy Castro e Fernando Morais.

Na evolução da minha carreira de docente e pesquisador na Escola de Comunicações e Artes da USP, após o doutorado, deparo-me com certas limitações do próprio jornalismo literário. Apesar da exuberência estilística dessa corrente e de sua aptidão para a captação cálida do real, encontro um certo envelhecimento de sua visão de mundo. Os valores de fundo, os alicerces epistemológicos que sustentam seu olhar não têm acompanhado, na maioria dos casos, os extraordinários avanços de compreensão da realidade que as ciências de ponta têm produzido. Propostas   da física quântica, da Teoria dos Hemisférios Cerebrais, da psicologia humanista – desde Jung até  Ken Wilber, passando pela psicosíntese de Roberto Asagioli e pela linha arquetípica de James Hillman -, da Teoria Gaia e dos campos morfogenéticos alteram profundamente nossa base de entendimento do mundo, da Natureza, de nós próprios. Estimulam nossa consciência saltar de um patamar puramente racionalista ( portanto reducionista, fragmentador, parcial, distorcente) para uma plataforma integradora, onde a razão e a intuição, a emoção e a lógica combinam-se numa oitava superior de compreensão.Somos impulsionados a mutar nossa perspectiva de uma âncora exclusivamente fundamentada no pensamento linear, quase estático, endurecido, para um fluir processual de pensamento complexo. Recebemos a oferta de um novo conjunto de paradigmas de compreensão, a transdisciplinaridade, onde navegam em interação de múltiplo diálogo as ciências, as artes, a filosofia, as tradições. 8

Procurei incorporar elementos dessas novas bases epistemológicas, assim como procedimentos práticos decorrentes, numa modalidade de reportagem e ensaio que denominei Jornalismo Literário Avançado.9 Sou pesquisador que evita para a academia um papel reativo, puramente analítico e passivo com relação às ocorrências do mundo extra-muros das universidades. Concebo, como meu papel, a tarefa de sugerir caminhos experimentais para a comunidade externa.  Professo a fé na capacidade potencial dos centros avançados de estudo, pesquisa e desenvolvimento dos núcleos de conhecimento de ponta em gerar propostas práticas, aplicáveis em instâncias inovadoras da ação na sociedade como um todo.Pus-me a campo, nas disciplinas de pós-graduação que tenho tido a oportunidade de conduzir, na ECA, nas orientações de Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado, para semear essas sementes de um novo olhar e um novo fazer que transportam legados da experiência acumulada humana – a maturação do jornalismo literário ao longo do tempo -, mas renovam e acrescentam conteúdos transformadores. Daí o Jornalismo Literário Avançado. 9 Agregado ao Núcleo de Epistemologia do Jornalismo da ECA, um óasis de ousadia inovadora conduzido pelo brilho pioneiro de Cremilda Medina, dei passos adiante, após mapeado o Jornalismo Literário Avançado, construindo um novo território específico em seu interior. Procurei trabalhar uma forma própria de elaboração metodológica das histórias de vida. Uma ação que está em progresso, quando escrevo este artigo, já apresentando características bem definidas.  

Uma deles, fundamental, é a incorporação de elementos da Jornada do Herói. Dentro da vontade de atualizar as histórias de vida com conteúdos pertinentes a uma abordagem inspirada no conceito de pensamento complexo, deparei-me com uma maravilhosa proposta onde combinam-se princípios da psicologia de Carl Gustav Jung e dos estudos mitológicos de Joseph Campbell.

Jung legou à humanidade o conceito de que além da consciência e inconsciência pertencentes à esfera do indivíduo, a nossa espécie é também movida pelo consciente e pelo inconsciente coletivos. Por essa esfera coletiva circulam os arquétipos, padrões e modelos inspiradores de comportamento, de diretrizes para a ação humana e para a realização dos nossos propósitos mais profundos, enquanto seres participantes da grande evolução cósmica que envolve a existência da humanidade, do planeta Terra , movidos por uma força intrínseca de ampliação de suas possibilidades e de conquista gradativa, no caso dos humanos, de graus cadas vez mais sofisticados, porém integrados, de auto-conhecimento.

No firmamento dos arquétipos, o herói é uma figura de destaque. É um o ser chamado a evoluir, a se auto-conhecer através das ações e dos desafios que é obrigado a enfrentar, a conquistar um nível amplificado de compreensão da existência, a transformar em benefício para si e para os outros os resultados da sua ação.10 Campbell, por sua vez, constatou que o herói é conteúdo arquetípico universal, existente em todas as culturas, em todas as épocas. Há variações externas de suas caracaterísticas, conforme a cultura e a era, mas intrinsecamente manifesta-se um padrão universal. Para realizar-se, o herói é chamado a um processo de aventura, de mergulho em territórios desconhecidos, seguindo etapas identificáveis de uma trajetória. Depara-se com personagens variados, porém universais, como o aliado, o adversário, o mentor. Enfrenta situações típicas, como a do teste supremo. A isso denomina-se Jornada do Herói 11.

Esta promissora combinação de conteúdos gerou um método de trabalho para a estruturação de narrativas, na indústria cinematográfica. Descubro, nas minhas pesquisas, que um consultor de roteiros de Hollywood, Christopher Vogler, sistematizara uma abordagem prática, balizadora. Constato de que modo a proposta vem orientando a produção de cineastas de prestígio como George Lucas e Steven Spielberg.12   As séries clássicas e atuais Guerra nas Estrelas, Indiana Jones e O Senhor dos Anéis são exemplos bem sucedidos do emprego desse método de trabalho.

O passo seguinte que tomei foi adaptar experimentalmente o método à minha proposta em progresso de histórias de vida, no âmbito do Jornalismo Literário Avançado. A Jornada do Herói passa a ser um conjunto conceitual e estrutural da proposta metodológica para narrar vidas de pessoas reais, de carne e osso. Método que, diga-se de passagem, não se esgota na Jornada.

Creio que é padrão costumeiro, na jornada de um pesquisador universitário, a partir de um certo momentode trajetória, seu trabalho ampliar-se para um empreendimento coletivo. Outros pesquisadores ou orientandos agregam-se em torno de sua linha central de estudos, mapeando em conjunto convergentes aspectos de um campo sob foco.      

Tenho tido a oportunidade de fazer um pouco disso, unindo ao redor do interesse comum pelo livro-reportagem, pelo jornalismo literário e pelas histórias de vida um pequeno grupo de pesquisadores em formação.   Em outras situações, tenho podido colaborar em alguma medida influenciadora com os trabalhos de orientandos de outros colegas pesquisadores da pós-graduação em jornalismo da ECA. Fora da USP, uma oportunidade de experimento            no nível de graduação está      em andamento na Universidade de Uberaba, Minas Gerais, onde assumi a Direção do Curso de Comunicação Social há um tempo atrás.

Gradualmente, resultados promissores começam a ocorrer. Como sou pesquisador que procura aliar a teoria à prática, adoto uma linha de ação que exige de orientandos e estudantes a produção de trabalhos que combinam essas duas faces de uma mesma realização. Pedras preciosas em burilação surgem, como este trecho de Ana Taís Martins Portanova Barros:

Pedra Luiza mete a mão no lixo para ajudar o Brasil a ser impávido colosso, fazendo economia e já na ponteira, vem a energia. Uma tonelada de papel reciclado precisa só da metade da energia para fazer uma tonelada de papel convencional. E se estamos falando de sucata ferrosa, dá para economizar 70% da energia que se usaria para a produção de lingotes a partir de minérios de ferro. A reciclagem de alumínio chega a economizar 95% da energia, sendo que a emanação de gases e efluentes poluentes é quase zero.

Energia, é isso de que somos feitos e o que a Pedra Luiza precisou quando ficou desempregada, separada do marido, três meninas para cuidar, Camila, Flávia e Renata, esperando o de comer, o de vestir. “Não vou nem escolher emprego”, e lá se foi ela fazer ficha na usina de compostagem da Vila Leopoldina, lá onde vai parar 7% do lixo dos paulistanos, passa resto de comida, casca apodrecida, tudo quando é coisa fedida. Tem alguém que bota a mão ali, alguém precisa fazer isto, ainda bem que não é Pedra, não sei se teria coragem, mas depois a gente acostuma com tudo na vida. Daí Pedra foi trabalhar com lixo seco, R$0,96 por hora, R$235,00 por mês. 13

Prosseguindo nessa trilha de combinar teoria e prática, um tempo depois desse texto Ana Taís concluiu sua Dissertação de Mestrado, que resultou no livro Jornalismo, Magia, Cotidiano (Canoas: Editora da ULBRA, 2001). Mais recentemente, pude orientar a Dissertação de Sérgio Luiz Villas Boas cujo resultado para o grande público é o livro Biografias & Biógrafos: Jornalismo Sobre Personagens (São Paulo: Summus, 2002). Na escola de aliar a teoria à prática, Sérgio traça o perfil do ex-jogador de futebol e comentarista de televisão Tostão. Também em breve – poucas semanas após concluir este texto -, Monica Martinez deverá estar defendendo a Tese de Doutorado onde, seu mentor, orientiei-a no seu próprio desafio de elaborar a “Jornada do Herói: Estrutura Narrativa Mítica para Construção de Histórias de Vida”, uma proposta de experimento dessa abordagem na produção de textos de estudantes de jornalismo.

Do Núcleo de Epistemologia do Jornalismo e de outros centros de pesquisa da ECA têm brotado trabalhos igualmente significativos, todos contribuindo para a expansão de um processo de disseminação das abordagens de jornalismo literário e histórias de vida. São os casos das Dissertações de Mestrado de Raul Osório Vargas ( “A Reportagem Literária no Limiar do Século 21”), de Alex Criado (“Repórteres Pioneiras: Resgate da Trajetória de Três Jornalistas Através da História Oral”, em breve em livro) e de Dimas Antônio Künsch (já publicada em livro pela Annablume de São Paulo: Maus Pensamentos: Os Mistérios do Mundo e a Reportagem Jornalística).

Faz parte da estratégia de disseminação também incentivar essas abordagens, em grau simplificado, na graduação em jornalismo, buscando incentivar talentos promissores. Na ECA, um bom exemplo   recente é o TCC – Trabalho de Conclusão de Curso– de Denise Casatti (“Moinhos de Vento de Dulcinéia: História de Vida de uma ex-Presidiária”, em breve também em formato de livro, pela Com-Arte, do Departmanento de Jornalismo e Editoração da ECA). Na Universidade de Uberaba, onde pudemos introduzir na habilitação em jornalismo esses instrumentos de trabalho e contar com o apoio em equipe, como docentes contratados, de alguns dos pós-graduandos da ECA, resultados também promissores são sementes espalhadas desse enfoque renovador, cremos. “Anjos da Vida”,livro-reportagem de Mariângela Camargos, foi finalista do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, 2000 e recebeu menção honrosa na Expocom daquele ano, que também concedeu menção honrosa ao livro-reportagem de Mônica Cussi, “Duas Faces do Jornalismo”. Na Expocom do ano seguinte, foi a vez de Larissa Vieira receber menção honrosa por “Jardineiros do Amor”.

Se este é o estado da arte atual, do trabalho de fomentação inovadora que temos podido fazer a partir do Núcleo de Epistemologia do Jornalismo da ECA, qual é o desafio futuro em progresso das histórias de vida e das narrativas em profundidade do jornalismo? Que tendências podem emergir?

A passagem por um estágio pós-doutoral na Universidade de Toronto, o ano passado, levou-me a constatar como está diversificado o emprego das histórias de vida enquanto método de narrativa e de pesquisa qualitativa na América do Norte, especialmente no Canadá. Há variações interessantes no uso do método, em campos distintos como a educação a administração de empresas. Na linha com a qual mais me afino, já está incorporado um procedimento em que o narrador também coloca-se visível na própria narrativa, enquanto descobridor reflexivo da sua própria trajetória, ao debruçar-se sobre a vida de alguém. Protagonista e narrador estão associados numa trajetória de descoberta, ao longo do texto. Gosto dessa abordagem. E gosto do distanciamento que os pesquisadores canadenses têm conseguido das fórmulas reducionistas, racionalistas em excesso de construção de histórias de vida. Intuição, emoção e razão caminham juntas.

Também na América do Norte cresce o conceito de “literatura criativa de não-ficção”, que incorpora narrativas típicas do jornalismo literário e das histórias de vida. Na medida em que críticos muito arraigados da tradição jornalística bem ortodoxa combatem a produção de narradores da estirpe altamente qualificada de Gay Talese, por exemplo, considerando-a “não jornalística” (por fugir dos ditames estreitos do jornalismo convencional), esse e outros profissionais cansaram-se de tentar convencer os críticos. Talese, por exemplo, já não mais chama seu trabalho de “jornalístico”, simplesmente para evitar dores-de-cabeça fúteis. Denomina-o “literatura da realidade”, e estamos conversados. Ao mesmo tempo, proliferam as iniciativas – cursos, inclusive em nível de Mestrado – de reflexão, aprendizado e produção da “literatura criativa de não-ficção”.

A meu ver, ou o jornalismo no Brasil demonstra elasticidade cultural para incorporar essa tendência inovadora, ou teremos aqui também uma “literatura criativa de não-ficção” que rejeiterá qualquer conexão formal com a atividade jornalística. Se isto ocorrer, quem sairá perdendo será o jornalismo, por falta de flexibilidade e visão.

Ao mesmo tempo, tramitando no âmbito do jornalismo ou como “literatura criativa de não-ficção”, as histórias de vida têm um papel cada vem mais preponderante a desempenhar, nesse conturbado mundo nosso em busca de transformação. Reinvindico uma postura proativa para as histórias de vida, como instrumentos de resignificação de quem somos, enquanto seres individuais e espécie coletiva.

Estamos num processo dramático de esforço de ampliação de consciência. Já não nos servem os parâmetros exclusivamente racionalistas, pois os efeitos colaterais de sua ação funesta estão dolorosamente visíveis nos inúmeros problemas aparentemente insolúveis da civilização contemporânea, como os danos ecológicos desastrosos, a violência do homem contra o homem, a falência dos regimes políticos atuais, a incompetência generalizada global no combate à miséria no planeta, a corrupção galopante nos escuros corredores dos negócios e nas ante-salas do poder.

É momento de revisão e reescritura da história. É momento de aprendizado dos discursos de realidade que todas as culturas têm para compartilhar, principalmente aquelas rejeitadas até agora pela visão racionalista preconceituosa, praticante da arrogância míope que destrói e espizinha o diferente. E não temos muito tempo. Damos um salto de qualidade a uma perspectiva integradora, ampliada, de recompreensão da realidade, ou afundamos na falência do projeto da civilização humana na face da Terra. 14

As histórias de vida, espero, podem vir a ser instrumentos despertadores da iluminação profunda de quem somos, de fato, do que podemos fazer na gestão do nosso próprio destino como co-criadores do futuro, em parceria com as forças pulsantes e construtivas do universo. As vidas de muitas pessoas iluminadas, famosas ou anônimas, estão exatamente aguardando narradores sensíveis e inteligentes o suficiente para espelharem, nas narrativas de suas vidas, aquilo que é semente potencial em cada um de nós. Heróis potenciais somos todos , na dimensão exata da maior aventura que pode ser contada: a jornada do indivíduo desde a consciência ilusória do pequeno ego, adormecido, para o magnífica estado em que se descobre ser desperto, intensamente vivo, partícipe consciente da grande dança cósmica que é a existência.      

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Edvaldo Pereira Lima é professor (aposentado) da Escola de Comunicações e

Artes da Universidade de São Paulo (Brasil) e vice-presidente da Academia Brasileira de Jornalismo Literário – www.abjl.org

Doutor em Ciências da Comunicação, com pós-doutorado em Educação pela Universidade de Toronto (Canadá). Escritor e jornalista. Entre sua produção bibliográfica, destaca-se Páginas Ampliadas: O Livro-Reportagem Como Extensão do Jornalismo e da Literatura (São Paulo/Barueri: Manole, 2009), quarta edição ampliada.

Contato com o autor: ed.pl@terra.com.br

Notas e Referências Biográficas

  1. ROSS, Lillian. “How Do You Like It Now, Gentlemen?” In Life Stories: Profiles from     The New Yorker, editado por David Remnick. Nova York: Modern Library, 2001.

     “Papa” era o apelido de Ernest Hemingway.

2. Menção a conteúdo de The New Journalism (Londres: Picador, 1980), de Tom Wolfe,

em meu livro Páginas Ampliadas: O Livro-Reportagem Como Extensão do Jornalismo e da Literatura (Campinas: Unicamp, segunda edição, 1995).

3.ACOCELLA, Joan. “The Soloist”, in Life Stories: Profiles from The New Yorker, op.cit.

4. TALESE, Gay. “The Bridge”. In The Literature of Reality, por Gay Talese e

Barbara Lounsberry. Nova York: HarperCollins, 1996.

5. _______________. “Origins of a Nonfiction Writer”. In The Literature of Reality, op.cit.

6. A Tese de Doutorado foi publicada no formato de livro com o título de Páginas Ampliadas (vide nota 2).

7. Citação de A Guerrilha do Araguaia ( São Paulo: Alfa-Omega,1978), de Palmério Dória, Sérgio Buarque, Vicent Carelli e Jaime Sautchuk em Páginas Ampliadas, op. cit.

8. Algumas obras que abrem corações e mentes para esse novo olhar: O Ponto de Mutação, de Fritjof Capra (São Paulo: Cultrix, s/d); Transdisciplinaridade, de Ubiratan D´Ambrosio (São Paulo: Palas Athena, 1997), A New Science of Life, de Rupert Sheldrake (Londres: Flamingo, 1987); Gaia: A New Look at Life On Earth, de James Lovelock (Oxford: University Press, 2000), O Manifesto da Transdisciplinaridade, de Basarab Nicolescu (São Paulo:Triom, 1999); Ciência com Consciência, de Edgar Morin (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996).

9. Uma síntese da formulação inicial da proposta do Jornalismo Literário Avançado está em meu artigo “Da Vigília ao Sonho Lúcido”, in Saber Plural: Novo Pacto da Ciência       3, organizado por Cremilda Medina e Miton Greco (São Paulo: ECA/CJE/CNPq,       1994).

10. Uma boa síntese do pensamento de Jung encontra-se em Jung: O Homem Criativo, de Luiz Paulo Grinberg (São Paulo: FTD, 1997).

11. CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, s/d.

12. VOGLER, Christopher. The Writer´s Journey: Mythic Structure for Storytellers          & Screenwriters. Studio City: Michael Wiese, 1992.

13. MARTINS, Ana Taís. “Vamos Dançar?” In Econautas: Ecologia e Jornalismo         Literário Avançado (Canoas-São Paulo: ULBRA-Fundação Peirópolis, 1996),         coordenado por Edvaldo Pereira Lima..

14. Obras fundamentais que abrem uma nova perspectiva sobre o ser humano e

a sentido de sua existência: El Proyecto Atman: Una Visión Transpersonal del Desarrollo Humano (Barcelona:Kairós, 1989), de Ken Wilber        e          The Perennial Philosophy (Nova York: Harper & Row, 1970), de Aldous Huxley.

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Publicado originalmente em Comunicarte, v. 19, n 0 25, Campinas – SP, PUC-CLC, 2002.

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