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APROXIMANDO FRONTEIRAS: A HISTÓRIA DE VIDA NO CENÁRIO DA EDUCOMUNICAÇÃO

 

Edvaldo Pereira Lima

 

No final da década de 1980, o jornalista norte-americano Tracy Kidder desenvolveu o projeto de um livro que tinha como objetivo traçar um retrato da educação fundamental nos Estados Unidos. Em lugar de imaginar um livro analítico, denso, repleto de dados, estatísticas e informações oficiais, por isso mesmo frio e distante, Tracy optou por outro formato. Escolheu o livro-reportagem, fiel à tradição do jornalismo literário, modalidade de narrativa da realidade que busca aliar informação sólida e texto fluente.

 

     O propósito do jornalismo literário é buscar compreensão contextual da situação escolhida para abordagem, conduzindo o leitor por uma viagem envolvente de descoberta. Por isso, é ponto central em muitas de suas reportagens o recurso da história de vida, colocando em primeiro plano as personagens reais que vivem a situação sob foco.  

     Por exemplo...

         Ela tinha trinta e quatro anos. Usava saia branca e blusa amarela, e um colar dourado que segurava na mão, como se segurasse seu reino, enquanto aguardava as respostas das crianças. O cabelo era preto, com uma mecha ruiva, irlandesa. O penteado era curto, sobre as orelhas, e esticado para trás como um par de asas desfraldadas. Tinha um queixo delicadamente fendido e era baixinha - ela caberia na carteira das crianças. Embora a voz parecesse casual, tinha projeção. Não que houvesse sido atriz. Tinha desenvolvido essa voz impactante na sala de aula. (KIDDER, 1998, p. 2).

Esta é a descrição inicial de Christine Zajac, a professora protagonista do resultado do trabalho de Tracy, o livro-reportagem Among Schoolchidren - Na Escola Com as Crianças, em tradução livre -, que se tornaria um bestseller na década de 1990 na América do Norte. A trajetória do autor consistiu em mapear a questão do ensino fundamental, tomando uma escola pública como amostra. Em vez de uma tese ambiciosa sobre o tema, preferiu concentrar seu olhar sobre um caso específico, retratá-lo da maneira a mais intensa e fiel possível. Escolheu a Kelly School. Em lugar de uma metrópole, preferiu uma cidade pequena. Holyoke, no Estado de Massachusetts.

     Feita a escolha, conseguidas as autorizações e os consentimentos devidos, Tracy partiu para a cidade, passando todo um ano letivo - do primeiro ao último dia de aula - participando, observando, anotando as atividades dos professores, alunos e diretores da escola, sentando-se nos bancos escolares com as crianças, mergulhando fundo no mundo cultural e social da cidade, em sua história. A meta era retratar o ensino em perspectiva, contextualizado em primeiro plano na questão particular da Kelly School, depois no universo de Holyoke, em seguida no âmbito mais geral do panorama educacional norte-americano.

   O eixo da narrativa é a história de Christine - ou simplesmente Chris - naquele ano letivo. A Chris em sala de aula, mas também em casa, com a família - o marido Billy, dois filhos -, em reuniões com os pais de alunos, e até mesmo viajando para Porto Rico, numa excursão da escola, já que muitos dos alunos eram imigrantes ou filhos de imigrantes daquele país.

       Quando optou pela história de vida como instrumento principal do seu trabalho, Tracy Kidder embarcou numa tradição que já vem de longa data no jornalismo norte-americano. Pelo menos desde a década de 20 do século passado, a narrativa jornalística de profundidade nos Estados Unidos tem trabalhado ferramentas de expressão que colocam as pessoas - famosas ou anônimas - em primeiro plano. Ao longo das décadas, essa tradição foi sendo aperfeiçoada, até chegar ao primor de produções esplendorosas de grandes mestres da narrativa da realidade, como Joseph Mitchell, Lillian Ross, Gay Talese, John McPhee. A inovação de Tracy Kidder foi aplicar essa tecnologia narrativa sobre um tema de educação. Resulta que textos assim acabam exercendo uma função também educativa, pois a narrativa é um dos mais importantes instrumentos do processo ensino-aprendizagem. Não se ensina apenas pela maneira convencional, tipicamente dissertativa, preferida pela maioria das abordagens educacionais do nosso tempo. Ensina-se também contando-se histórias.

     Um dos modos mais interessantes de se contar histórias - e ensinar - é aquele que se organiza em torno das vidas humanas, de gente de carne e osso. É também um dos modos mais gratificantes de se aprender. Assim como é de se pesquisar cientificamente, principalmente sob o guarda-chuva metodológico do grupo das pesquisas qualitativas.

     Iniciativas pioneiras começaram a ocorrer no âmbito da antropologia, no início do século XX. Antrópologos norte-americanos empregaram formas rudimentares de história de vida - como recurso de pesquisa e de relato -, ao estudarem a cultura de povos nativos. Na década de 20, esse procedimento foi absorvido pelos sociólogos da chamada Escola de Chicago, transformando-se num método aceito de trabalho científico a partir da publicação de The Polish Peasant in Europe and America, de W. I. Thomas e F. Znaniecki, que combina histórias de vida com teorização sociológica[2]

       Posteriormente, outros campos do conhecimento passaram a empregar o método consistentemente, como a psicologia - que já contara com trabalhos pioneiros de Freud em 1909 e 1911 -, a partir das iniciativas de H.A. Murray em 1938 e de G.W. Allport em 1942,[3] e a história, que desenvolveria sua própria versão, a história oral, começando por um projeto da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, lançado sob a liderança de Allan Nevis, em 1948.[4]

     Nos anos seguintes, a história de vida cresceu, atingindo um pico de popularidade junto aos pesquisadores. Mais tarde, entrou num ciclo descendente de perda de preferência. Mas, devagar, recomeçando em meados da década de 1970, embarcou noutra fase de ascensão, caminhando para multiplicar-se em diversas variantes de uso do método, ganhando revigoramento preferencial no terreno da pesquisa qualitativa, penetrando em campos de estudos onde ainda não se notara sua presença.

       Ardra L. Cole e J. Gary Knowles, dois expoentes atuais dessa corrente centrada no trabalho qualitativo, apontam o emprego recente do método em áreas tão diversificadas quanto a gereontologia, as ciências da saúde, o ensino de música, a enfermagem, a psiquiatria, a clínica médica, o serviço social, os estudos socioculturais e os estudos femininos.[5]  

   E a educação?, o leitor poderá perguntar.

   O uso da história de vida em educação expandiu-se sobremaneira nas duas últimas décadas do século XX, pelo menos na América do Norte, ganhando um ímpeto renovador extraordinário, graças em parte ao trabalho de pesquisadores ligados ao Ontario Institute for Studies in Education - o OISE - da Universidade de Toronto, no Canadá. Trata-se de uma unidade especial de pesquisa e ensino de educação, em nível de pós-graduação, em cujo seio nasceram propostas metodológicas arrojadas. Alguns desses pesquisadores atribuem a Paulo Freire uma influência histórica importante na base da renovação da prática, mas naturalmente avançaram para conteúdos e procedimentos não contemplados originalmente pelo nosso educador visionário.

       O repertório de histórias de vida em educação trabalhadas nos últimos anos por pesquisadores do OISE e de outros centros de estudos na América do Norte abrange subtemas tão variados quanto o papel do diretor de escola, a história da escola, os perfis de educadores inovadores, o processo de aprendizagem, a formação de professores, a interação entre a escola e a comunidade, e tantos outros igualmente importantes. O método, portanto, não fica limitado ao resgate da memória. O foco geográfico dos trabalhos transcende o continente norte-americano. Particularmente na Universidade de Toronto, por estar sediada numa cidade eminentemente multicultural, abrigando um número considerável de imigrantes, e por uma política aberta às relações internacionais, a produção de Teses de Doutorado de profissionais procedentes de diversos países, focalizando questões de suas nações de origem, não é incomum.

       O estado da arte da aplicação do método revela que os pesquisadores desprezam um formato sisudo na apresentação dos resultados de seus trabalhos. Têm um patamar de ambição mais elevado, como revelam dois teóricos de prestígio, D. Jean Clandinin e F. Michael Connelly:

   Para nós, a vida - tal como nos ocorre e como ocorre com os outros - é preenchida de fragmentos narrativos, ordenada em momentos armazenados de tempo e espaço, e entendida em termos de unidades narrativas e descontinuidades.

     Resulta daí que...

   Vimos a questão central da nossa pesquisa como sendo a tentativa de pensar na continuidade e na inteireza da experiência de vida do indivíduo. Essa questão, nos nossos estudos sobre educação, levou-nos eventualmente à narrativa. Começamos então a refletir sobre a preocupação central das ciências sociais sobre a experiência humana. Para os cientistas sociais, e conseqüentemente para nós, a experiência é um termo-chave. A educação e os estudos sobre educação são uma forma de experiência. Para nós, a narrativa é o melhor meio de representar e compreender a experiência. A experiência é o que estudamos, e a estudamos narrativamente porque o pensamento narrativo é uma forma-chave de experiência e é um modo essencial de escrever e pensar sobre isso. Assim, o pensamento narrativo é parte do fenômeno da narrativa. Pode-se dizer que o método narrativo é uma parte ou um aspecto do fenômeno narrativo. Portanto, dizemos, a narrativa é tanto o fenômeno quanto o método das ciências sociais. [6]

     Assim, a história de vida no ambiente educacional não é apenas um método de pesquisa, de levantamento de dados, de observação de padrões de atuação profissional. É também uma forma narrativa que busca compartilhar conhecimento através da fluência do texto. Porque entendem, esses teóricos de ponta, que o ensino e a aprendizagem não podem ser apreendidos pela abordagem puramente analítica, linear, do procedimento científico convencional, centrado no entendimento exclusivamente lógico das coisas. Há um certo quê de arte no processo, mas só pode ser apreendido se o pesquisador permite-se um vôo de compreensão mais aberto, disponível para a intuição e para a emoção.

     Com instrumentos flexíveis de observação e compreensão do real, os estudiosos têm desenhado instigantes retratos etnográficos de uma série de fenômenos ligados à educação - particularmente centrados no professor -, tais como a filosofia pessoal dos docentes, suas regras e princípios no ato de ensinar, sua imagem na sociedade, os ritmos e ciclos do ensino.

   De fato, a produção de boa parte dos pesquisadores do OISE constitui hoje um repertório amplo de um padrão de pesquisas que eles próprios denominam de pós-moderno. Um de seus integrantes, Mary Beattie, anuncia deste modo um dos seus estudos:

   Trabalhei colaborativamente com uma professora, e a pesquisa colaborativa compreendeu as práticas da professora, suas experiências pessoais e profissionais, e as unidades narrativas de sua vida, para oferecer-nos um modo holístico de pensamento sobre o que é o ensinar e sobre o modo pelo qual os professores aprendem (1995, p. 7).   

   Esse padrão pós-moderno rompe barreiras do procedimento científico tradicional, mesmo as da pesquisa qualitativa clássica, convencional. Quebra tabus. Propõe antes de tudo que o pesquisador é um indivíduo - um ser inteiro, que não pode ser dividido -, portanto um ser cuja porção profissional está intrinsecamente ligada ao seu lado pessoal. Assim, pesquisar é uma atividade extensiva do indivíduo como um todo. Só faz sentido quando esse engaja-se no processo por inteiro, pesquisador e pessoa envolvidos num trabalho de profundidade que busca sentidos, incluindo o significado pessoal da pesquisa para si.

     Sob esse prisma, a pesquisa é um empreendimento intensamente pessoal, tanto do pesquisador quanto da pessoa - ou do grupo social - que se torna o eixo focal do estudo. Como na história de vida - principalmente na modalidade da pesquisa colaborativa, em que o pesquisado é co-criador da investigação, junto com o pesquisador - um fator fundamental é a interação entre quem pesquisa e quem se deixa pesquisar, os profissionais de Toronto rompem com a postura convencional do distanciamento, da formalidade e da definição rígida de papéis, demarcados em territórios estanques. Propõem uma postura humanista, entendendo a interação de pesquisa como um processo "complexo, fluido, dinamicamente mutável, e com fronteiras que se fundem em estilo caleidoscópico", como sugerem Ardra Cole e Gary Knowles (2001, p. 27).

     Igualmente rejeitam a pretensa e arrogante "objetividade" das abordagens científicas tradicionais. Questionam-na como falaciosa. Têm um argumento poderoso para isso:

   Os valores, as crenças, as experiências, as perspectivas, e as características físicas, sociais e contextuais que moldam quem somos, assim como as paixões, os compromissos e as motivações que nos movem, estão fortemente presentes quando assumimos e exercemos nossos papéis de pesquisadores (2001, p. 49).

   Por isso mesmo, em contrapartida à pretensa objetividade, propõem outra perspectiva:

     Distanciar-se da desordem e das complexidades das vidas é esvaziar-se da força erótica da vida. Queremos gritar coragem, com todo o vigor dos nossos pulmões, para os pesquisadores de histórias de vida articularem claramente, no âmbito das definições de seus trabalhos, sua humanidade - seus valores fundamentais, experiências e paixões por detrás de suas pesquisas -, como um meio legítimo de se engajarem e representar as complexidades de seus achados. Fazer isso é honrar a si mesmo, honrar aqueles que são o foco das pesquisas, honrar a jornada ou as jornadas empreendidas. Tal atitude não só engajará os leitores (ou espectadores), mas tornará visíveis os suportes fundamentais da pesquisa (2001, p. 48).

   Esse horizonte amplo dos pesquisadores da Universidade de Toronto levou-os a abrir um outro portal, tão ousado quanto as afirmações já reproduzidas neste texto. No início do ano 2000, criaram o Centre for Arts-informed Research, uma unidade avançada, no contexto do OISE, tendo como missão explorar e apoiar o uso de formas alternativas de pesquisa qualitativa e representação, capazes de infundir elementos, processos e formas das artes nos trabalhos acadêmicos, incluindo majoritariamente as pesquisas de histórias de vida, particularmente com foco na área educacional.

   O resultado da produção desse centro de pesquisa que utiliza a arte como meio de expressão de estudos organicamente científicos, em que a reflexão e a narrativa combinam-se em busca da compreensão abrangente, em que a contemplação e a reflexão unem-se em favor da vida, sob um ângulo integral de observação e experiência, manifesta-se em relatos tocantes, surpreendentes. Prosa e poesia expressam descobertas pessoais, achados academicamente válidos, iluminadores.

     A pesquisadora canadense Jessica Ticktin parte para a África do Sul, num projeto envolvendo uma comunidade pobre da cidade de Cape Town e a ONG - Organização Não Governamental - Ikamva Labantu. Vê-se imersa num oceano de histórias das mulheres negras e sua militância na era do apartheid. Não recusa o impacto emocional, deixando-se levar pelo processo criativo avassalador que a envolve, como gente e cientista social, uma fronteira diluída no território da outra. Aceita o desafio, recebe a recompensa de encontrar, num salto quântico elucidativo de qualidade, um novo sentido para sua própria vida, para as vidas que estudou, para o processo que examinou:

        

       Senti uma ligação fortíssima com as mulheres da Ikamva Labantu. Ultrapassava o terreno do coleguismo, atingia algo mais profundo e mais significativo. Comecei a gravar e transcrever suas narrativas, fascinada não apenas pelas histórias, em si, mas pela intensidade com que me contavam e pela intensidade com que eu ouvia. Uma mulher, chamada Tutu, e eu, nos tornamos amicíssimas, irmãs.

   Como filha de um judeu sul-africano, minha história familiar está imbricada e implicada nas histórias dessas mulheres, e como pesquisadora busquei a fonte do meu desejo de aprender algo importante delas. Eu precisava saber em que havia investido, o que eu trazia para esse trabalho, como meu passado havia moldado o presente delas, e agora, como o presente delas estava moldando a mim.

ALÉM DE MIM

Tutu

Sento-me nesta sala, mais de três mil milhas

longe de você em um lugar que você nunca viu -

um mundo que você não reconheceria

Novembro com disposição sombria

estende suas asas cinzas ao meu redor

e deixa minha pele faminta de sol gritando

por luz e calor

Imagino seu rosto

a escuridão suave dos seus olhos

o queixo alto -

uma princesa Xhosa de algum ponto da sua linhagem

reincarnou em você

Fecho meus olhos

e desejo sentir a areia entre os meus dedos

e anseio penosamente sentir o cheiro do ar salgado em Cape Town

Mas por que sou arrastada para a África do Sul -

como pode meu desejo esconder dentro sua esqualidez, sua fome e miséria;

a depravação e a violência que é sua história?

Vou encontrá-lo atrás das grades de ferro nas janelas

emoldurando vistas da praia

ou subindo escadas em espiral,

acovardando-se em casas onde

meus parentes se escondiam?

Não consigo deixá-lo fugir, este desejo meu

devo expulsá-lo

Tutu, deixe-me ir com você -

Posso vê-la, dirigindo seu minúsculo Toyota branco

saindo da rodovia N1 entrando na Crossroads de baixo

os velhos chamando seu nome,

olhos brilhando de alegria que você chegou

Perguntarão como vai você, oferecerão chá

com muito açúcar e montanhas de arroz e batata

e frango assado no seu prato

Perguntarão sobre sua filha

e seus filhos, contarão a fofoca do dia

que o marido da fulana de tal foi morto na guerra de gangues

dos táxis locais que a filha de outra, uma menina de 12 anos, está grávida

mas, oh, exclamarão, você ouviu falar que o neto do Nombuso

entrou para a faculdade de direito?

Não lhe pedirão dinheiro, não fiscalizarão se você está de fato fazendo

seu trabalho,

em vez disso irão apertar sua mão e irradiar força

vão cantar e rezar e rir de boca escancarada

lágrimas banharão seus olhos mas você não vai deixá-los ver

Esta imagem me faz sorrir e por um momento

estou lá com você de novo, tímida e grata

uma parte de algo maior -

algo além de mim

num lugar onde a esperança nasceu. [7]

   Sim, emoção forte. Emoção conduzida pelo mesmo espírito que sopra as veias criativas dos repórteres e escritores que mergulham com a ânsia desvairada dos buscadores na realidade pulsante da vida. Deixam-se queimar como fogo bravo pelo desafio da descoberta, encontram no mundo externo a ressonância do interno, desenham no mapa do outro o território de suas próprias vidas. Contam na corrente do jornalismo literário, da literatura da realidade, da narrativa de não ficção, do jornalismo narrativo - nomes diferentes para as águas do mesmo rio - a história das vidas de famosos e anônimos que nos ajudam a formar o grande quadro da epopéia em curso da humanidade.

       Uma corrente presente mesmo no Brasil - embora discreta, tendendo a crescer gradativamente graças ao impulso natural de novas gerações de narradores e a um punhado de professores que mantêm a chama viva em algumas universidades - de hoje, mas que já teve muito brilho por aqui. Focalizando de vez em quando a educação e as histórias de educadores acessos para expor seus feitos revolucionários, tímidos para exibir suas vidas pessoais. Discretos, generosos como todo bom educador, pensam que vale a obra herdada para as futuras gerações, não o homem - ou a mulher - de carne e osso que a faz acontecer. Como Alexander Sutherland Neill, cuja contribuição para o mundo o repórter Paulo Patarra, da revista Realidade,começa a desvendar assim:

   Armados de pedaços de pau um grupo de garotos entra no mato. É hora de aula, mas eles escolheram caçar elefante. No caminho encontram uma mocinha lendo um romance. Um garoto dá-lhe um cutucão. Cruzam também com um menininho loiro que, apesar da temperatura de sete graus, está sem agasalho, com os pés dentro d´água, dando um banho num coelho de plástico.

   Na sala principal - ali são recebidas as visitas - dois guris jogam futebol com uma bola de papel. Um chuta, o outro defende. O gol são duas cascas de banana. No alto da escada de madeira que leva ao segundo andar duas meninas e três meninos estão ocupados enfiando um garoto menor numa caixa de papelão. Ele não está cabendo, dobram-lhe os braços e as pernas. Pedaços de pano e um jornal tornam a caixa mais confortável. De longe, uma mulher espia a cena. O volume está pronto, a tampa foi amarrada com um barbante, a caixa é empurrada escada abaixo. Nos últimos degraus ela se abre, o menino termina a viagem com parte do corpo fora do embrulho e gritando. Os outros dão risada, a mulher estica o pescoço, atenta. O pequeno pára de gritar, diz um palavrão, apanha a caixa e a arrasta para cima. E, no alto, se deixa encaixotar de novo para mais um passeio de "escada rolante".

   Num vão da porta, um casalzinho de 12 ou 13 anos discute vantagens e desvantagens da psicoterapia. O rapaz acende meio cigarro, dá uma tragada e passa a bituca para a menina. Ali perto uma dúzia de crianças dá marteladas e serra tábuas com muita disposição e barulho. O casal se afasta e quase é atropelado por uma bicicleta enferrujada, que passa em disparada, pilotada por uma ruivinha sardenta.

   O mato cresce pelo grande quintal, invadindo os caminhos e cercando um conjunto de balanças, a metade delas quebradas. No alto de uma barra que sustenta as balanças um menino está sentado e, de metralhadora em punho, atira sem parar contra as janelas de uma sala de aula. Suas rajadas barulhentas são respondidas por um homem alto que interrompe sua declamação de Shakespeare para dizer "bang-bang" de dedo indicador engatilhado. Os meninos que estavam ouvindo a história de Hamlet acabam por se aborrecer com tanto tiro e dão um ultimato: ou se interrompe o tiroteio ou eles também entram na briga. Uma menina é a porta-voz do grupo. O professor escolhe Shakespeare e sacode um lenço branco pedindo trégua à metralhadora.

     É hora de aula na escola inglesa de Summerhill. Mas só vai quem quer.[8]

     Uma jóia do passado caminhando para a poeira da memória de um tempo já distante. Mas estamos no presente, tentando hoje, na educação, construir sinais para balisar o futuro.Um tempo de temas transversais.

     Educomunicação. A aceitação implícita da função educativa dos meios de comunicação de massa. O resgate do pensamento do guru visionário de décadas atrás, o canadense Marshall McLuhan, antecipador da aldeia global. Antecessor da era virtual da instantaneidade eletrônica, mapeador do conceito de que o ensino do novo tempo não se restringiria mais à escola. Ganharia a carona galopante da televisão, o calor comunicante do rádio, as páginas glamorosas dos jornais. E por isso mesmo, em começo de século XXI, a educomunicação. O cuidado em ensinar-se a leitura crítica dos meios de comunicação, pois suas mensagens transitam carregadas de funções ideológicas e econômicas camufladas no ato primário de informar.

   Mas há outra idéia que norteia o conceito de educomunicação. Uma outra perspectiva preferencial que direciona o entendimento do autor deste texto. O entendimento de que os recursos narrativos da comunicação de massa - mais particularmente os do jornalismo literário e da literatura da realidade - podem ser empregados com sucesso em tarefas educativas legítimas. Como as de pesquisar, ensinar e aprender contando histórias. Preferencialmente histórias de vida. Transportando os instrumentos da literatura da realidade para o âmbito da educação.

   Por que isso?

   Porque a educação do século XXI precisa recuperar o prazer. Precisa reaprender a combinar a transmissão sólida de conhecimentos com a leveza do ato aprendiz. Basta do ensino marcado pela secura, pela aridez da visão de mundo distorcida por uma prática científica canhestra, inimiga da vida. Queremos a ciência da inclusão, não mais a da exclusão. Precisamos desesperadamente da ciência da construção amorosa, não mais a da destruição impiedosa desalmada. Des alma da. A que perdeu a alma, a que tirou o gosto de viver. E de aprender.

   Transdisciplinaridade. A ousadia do diálogo permeável mesclando ciências, artes, filosofia, tradições. O salto para o espaço/tempo para além até mesmo das disciplinas conhecidas, das especializações fechadas em sua limitação horrenda da incapacidade de transcender o próprio umbigo.

     Uma educação brasileira ágil, narrativa, disponível para a incorporação de novos métodos de geração, captação, registro e transmissão de conhecimento. Importados da tradição narrativa dessa literatura da realidade já tão bem sucedida no campo da comunicação de massa, adaptados para a função nobre do educar. Inspirados por iniciativas de ponta em ilhas de vanguarda da pesquisa qualitativa em educação. Como as iniciativas da Universidade de Toronto e seus pesquisadores ousadamente inovadores. O transporte de influências e know how desse tipo para dentro do cenário educacional brasileiro de hoje pode contribuir para dinamizar a prática dos estudos qualitativos, centrados na narrativa, já presentes em projetos dignos que assinalam caminho promissor.

   A realização em agosto de 2003 em São Paulo do seminário internacional Memória, Rede e Mudança Social, promoção conjunta do Sesc paulista e do Instituto Museu da Pessoa.Net, colocou na vitrine, sob a seção "Memória e Educação", casos notáveis.

   Como o do Centro de Referência em Educação Mário Covas, cuja área Memorial da Educação compartilha a história da educação no Estado de São Paulo. Como o do projeto que em Santa Maria, Rio Grande do Sul, resgata as histórias de vida de professoras alfabetizadoras, para compreender suas ações pedagógicas. Como os de escolas no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, que se envolvem na recuperação da memória de comunidades através das histórias de vida. Como o de Suely Lima de Assis Pinto que, na Universidade Federal de Goiás, investiga o processo de aprendizado de um autodidata notável em conhecimento científico, Binômio da Costa Lima, "seu" Meco.

     Amostras promissoras. Sinais de que muito se pode fazer no Brasil de agora e do futuro imediato no emprego de narrativas como instrumentos de organização do conhecimento, em educação. Utilizando-se as modalidades já conhecidas de pesquisa e expressão. Ampliando-se o leque para novas variações. É nesse contexto que o know how narrativo da literatura da realidade pode contribuir em algo, renovando procedimentos, ampliando o arsenal de ferramentas para pesquisar com critério e comunicar com sabor.

Vale a ousadia do experimento.Assumir o risco. Como no projeto em curso deste autor, focalizando as histórias de quatro educadores inovadores - Ubiratan D´Ambrosio, Regina Migliori, David Selby e Edmund O´Sullivan - no Brasil e no Canadá:

   Não importa quão cautelosamente um autor tente representar a vida de uma pessoa, não há verdade absoluta numa narrativa holística. A vida é maior que a arte, mais criativa, contínua. Entender é construção, ficção e fato são filhos da mesma família, o sentido é uma busca perenemente mutável.

   Intuição, insights, um olho aberto à sincronicidade, aos sonhos. Tudo isso ajuda a entender uma vida contada, uma circunstância, um episódio, uma ação, um contexto tempo/espacial. A complexidade é uma palavra-chave que abre compreensões escondidas.

     Momentos dramáticos.

     David Selby[9] é um jovem, entusiasta professor assistente em Educação, na University College, em Cork, República da Irlanda, tentando sustentar a família com um salário diminuto. 1972. Janeiro. De súbito, uma tragédia abate-se como aguaceiro de tempestade negra. "Domingo Sangrento". Treze pessoas mortas pelo exército britânico, na Irlanda do Norte.

David lembra-se, no livro que ele e Tara Goldstein editaram. Weaving Connections: Educating for Peace, Social and Environmental Justice:

  

     - A matança não apenas aterrorizou-me, como também deixou-me sentindo-me mais do que nunca cúmplice, como inglês, de uma lamentável história de séculos de opressão. Contra um pano de fundo da ampla e justificável ira contra as ações britânicas recordo-me vivamente do meu nervosismo, quando fui fazer uma palestra para 150 estudantes, sobre a história da educação na República Irlandesa, apenas dois dias após o massacre. Não posso imaginar uma situação mais explosiva. Após a palestra, estudantes-líderes aproximaram-se para assegurar-me que, apesar do ódio contra os militares e o sistema britânico, nada tinham contra mim, enquanto pessoa, indivíduo de nacionalidade inglesa.

         Momentos de ruptura.

     - Foi um momento profundamente catártico. Vi a necessidade de uma educação que construísse pontes entre divisões, que reconhecesse responsabilidades e cumplicidades, ao mesmo tempo formando novas relações baseadas no respeito mútuo.

   Dentro de semanas, eu havia começado a abordar a questão de como o ensino de história poderia contribuir ao entendimento internacional e intercultural, em meus seminários do método histórico, e já havia ajudado a deflagrar um programa de escolas irmãs entre escolas locais e escolas na Inglaterra. Voltei à Inglaterra um ano depois e passei os nove anos seguintes, como professor, desenvolvendo cursos integrados com uma crescente dimensão sócio-crítica (2000, p. 14).

   O Grande Mistério. Sim, outra questão, outra busca. Às vezes, ao escritor resta ouvir empaticamente. Silenciar. Compartilhar a emoção profunda.

     Fim de novembro, 2001. Edmund termina a última entrevista concedida a Edvaldo, para a pesquisa. Uma tarde tranqüila no escritório. Juntos, o escritor e Edmund revêem rapidamente as conversas até aquele momento. Concordam que completaram uma boa jornada sobre a vida dele.

   Mas então Edmund comenta que gostaria de falar um pouco mais sobre sua vida familiar. Sobre a morte da esposa, Pat. Alguma outra hora, quem sabe outro dia, talvez. Edvaldo sente que é momento, porém. A catarse que pode vir. Pergunta a Edmund se gostaria de fazê-lo naquele instante, então.

   Liga-se o gravador. Não há perguntas a fazer, nenhuma interferência do entrevistador. Apenas uma atmosfera suspensa no ar, suavemente dramática, quase venerável, preenchendo a sala. Edmund, o professor, emociona-se quando se recorda. Como homem, companheiro, parceiro, amante. Os olhos marejam. Uma única, suave lágrima desce pelo queixo.

   Os dois últimos dias lembrados. Dois dias inesquecíveis de uma tarefa de amor. Momentos preciosos para sentar-se mansamente ao lado dela, beijar sua face e mãos enquanto dorme pacificamente. Minutos preciosos para orar. Para trazer o velho amigo Thomas Berry para os últimos sacramentos. Para sentir-se embalado numa dimensão além da crença.

   Outra dimensão de vida. Um tempo sagrado. Tempo para sentir poderes e forças que lhe dão resistência inimaginável. Para sentir um lindo estado de gratidão por ter sido banhado pela bênção de uma companhia doce e poderosa de 27 anos. Para sentir, no exato minuto da perda dolorosa para a morte, estar envolto por um oceano de amor.

   Sim, amor. Palavras silenciosas. O sussuro delicado do todo concedendo ternamente à vida de alguém um sentido profundo. Estamos todos interconectados. Homens e mulheres e crianças e animais e plantas e minerais e águas e tempestades e a alvorada e o entardecer, ondas no oceano, a folha caindo da árvore no alto da montanha, todos os seres existentes e a Natureza. O ambiente integrado pulsante dançante da teia da vida. Gaia.

       Quando vamos permitir que aquela delicada e transformativa experiência da descoberta inexplicável do mistério toque nossas mentes e corações no ambiente educacional? Quando empurraremos maya, a ilusão dos sentidos, para longe, abrindo espaço para que nosso saber profundo venha à tona, trazendo consigo a sabedoria pura como diamante que revela quem somos, na nossa dimensão plena?

   As histórias de vida de Regina, David, Ubiratan e Edmund. A de Edvaldo, a sua, a de nossa irmã e a de nossos irmãos, podem inspirar respostas. Como espelhos, refletem a natureza holográfica da nossa própria jornada em busca do Self.

  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEATTIE, Mary. Constructing Professional Knowledge in Teaching: A Narrative of Change and Development. Toronto e Nova York: OISE Press e Teachers College Press, 1995.

CLANDININ, D. Jean e F. Michael Connelly. Narrative Inquiry: Experience and Story in Qualitative Research. São Francisco: Jossey-Bass, 2000.

COLE, Ardra L. e J. Gary Knowles (editores). Lives in Context: The Art of Life History Research. Walnut Creek: AltaMira Press, 2001.

KIDDER, Tracy. Among Schoolchildren. Nova York: Avon, 1989.

LIMA, Edvaldo Pereira. Escrita Total: Escrevendo bem e vivendo Com Prazer, Alma e Propósito. São Paulo, sistema editorial Clube de Autores – http://clubedeautores.com.br/book/2631--Escrita_Total -, 2009.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: O Livro-Reportagem Como Extensão do Jornalismo e da Literatura. São Paulo: Manole, 2009. Quarta edição ampliada.

MILLER, John P. Education and the Soul: Toward A Spiritual Curriculum. Albany: State University of New York Press, 2000.

PATARRA, Paulo. Ninguém Manda Nestas Crianças. Realidade, ano II, número 22, janeiro de 1968.

SELBY, David e Tara Goldstein (editores). Weaving Connections: Educating for Peace, Social and Environmental Justice. Toronto: Sumach Press, 2000.

THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

TICKTIN, Jessica. Tutu and Me. InThe Art of Writing Inquiry, Lorri Neilsen et al.

Halifax e Toronto: Backalong Books e Centre for Arts-informed Research: 2001.

 


[1] Escola de Comunicações e Artes, USP. Vice-Presidente da Academia Brasileira de Jornalismo Literário – ABJL - www.abjl.org.br

[2]   O livro é considerado um divisor de águas na evolução do método. Trata das histórias de vida de camponeses poloneses. Publicado em 1927 pela University Chicago Press, de Chicago, sua relevância histórica foi destacada por Ardra L. Cole e J.Gary Knowles em Lives in Context, a principal obra teórica de referência utilizada pelo autor deste texto.

[3] O trabalho pioneiro de Murray, Explorations in Personality, foi publicado pela Oxford University Press de Nova York. O de Allport, The Use of Personal Documents in Psychological Science, lançado pela Holt, Rinehart & Winston, também de Nova York. Ambos reconhecidos no levantamento histórico de Ardra L. Cole e J. Gary Knowles.

[4] Paul Thompson, uma das principais referências teóricas sobre história oral, realça a importância histórica de Allan Nevis no prefácio de seu livro A Voz do Passado.

[5] Os autores compõem no primeiro capítulo de Lives in Contextum panorama histórico e conceitual das principais correntes de história de vida. Depois, apresentam sua própria formulação de uma nova versão do método.

[6] Narrative Inquiry, páginas 18 e 19. Connelly é influência inspiradora sobre a evolução do método por parte de novas gerações de pesquisadores no OISE.

[7] "Tutu and Me", de Jessica Ticktin, páginas 101 a 103 de The Art of Writing Inquiry, editado por Lorri Nielsen et al.

[8] "Ninguém Manda Nestas Crianças", páginas 50 e 51 da edição número 22, janeiro de 1968.

[9]   Um dos principais teóricos dessa vertente inovadora, David já tem dois volumes de sua série Educação Global, escrita em parceria com Graham Pike, publicados no Brasil pela Textonovo, de São Paulo.

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