Gerando e disseminando conhecimento inovador: o caso do Jornalismo Literário

Por Edvaldo Pereira Lima (professor aposentado da USP:  ECA – Depto. de Jornalismo e Editoração)

Publicado originalmente, em mini série, no Jornal da USP
https://jornal.usp.br/?p=903737

 Episódio 1

Este artigo tem uma certa pegada de storytelling, na versão tradicional do Jornalismo Literário (propositalmente identificado com iniciais maiúsculas).  É a micronarrativa de uma  história – real – com enredo, um protagonista,  personalidades das comunidades acadêmica e jornalística, um tema central, um arco de transformação. O campo de força – a fonte, a usina criadora – na dimensão sutil da realidade que lhe dá condições de existir é o entrelaçamento de fatores contribuintes que alimentam o processo sistêmico criador no macro sistema USP e seus subsistemas Escola de Comunicações e Artes e Departamento de Jornalismo e Editoração. Os catalisadores que nutrem o disparo do processo são as pessoas-chave, na jornada do protagonista, que representam os  arquétipos  mentores – seus professores – e aliados – colegas e alunos/orientandos.

 O contexto temático é a função da universidade pública em gerar e disseminar conhecimento – inovador, de preferência – para a sociedade, exercendo a função honrável de contribuir para o avanço – e transformação, às vezes – da civilização. Assim como para a evolução das pessoas, quando possível.  

O texto decola  na  trilha criativa da metalinguagem do JL,  tendo   um autor  também protagonista, ambos apresentados pela ótica narrativa  desenhada por Norman Mailer – igualmente jornalista literário –  e à qual deu o nome de  ponto de vista autobiográfico em terceira pessoa, em  seu livro-reportagem Os Exércitos da Noite.

Edvaldo –  simplesmente Ed daqui em diante – é um garoto do interior do Brasil que no conturbado – mas culturalmente efervescente – anos 1960 descobre o fascínio do JL quando a inesquecível revista Realidade cruza seu caminho.  A narrativa imersiva –  típica dessa escola jornalística que moldou a  publicação  -,  centrada nas pessoas, o repórter mergulhado de mente, coração e intuição no mundo dos seus personagens reais, tendo como propósito uma leitura compreensiva e contextualizada da realidade, tudo produzido com uma maestria de linguagem equivalente à melhor arte da literatura de ficção, acende com  fulgor um cativante sonho de carreira profissional: viajar pelo planeta contando histórias de pessoas e culturas, arqueólogo  de vidas, híbrido de cientista e poeta em prosa nas asas do JL.

Sonho fortemente expandido no finalzinho da década, banhado pela atmosfera inspiradora do JL americano então pulsante nas revistas e jornais das bancas frente à entrada da Universidade de Harvard, a cinco minutos de ônibus de onde está morando, Watertown, cidade vizinha a Cambridge.  Mestres da arte desfilam pelas páginas, Tom Wolfe,  Gay Talese, Joan Didion,  conteúdo embalado por visões rejuvenescedoras do olhar sobre a sociedade, saltando do caldeirão chacoalhante da contracultura que balança as normas e crenças engessadas de um mundo excessivamente conservador.

Flash forward no tempo e Ed tem na sua primeira graduação – em Turismo, porque queria correr mundo, de fato -, de volta ao Brasil, residindo em São Paulo, uma fala-direcionadora de uma mentora de um único e decisivo regalo no entrecruzamento de vidas. Sarah Strachman Bacal, também professora da USP: “Seu rumo é mesmo a comunicação, mas só o trabalho de redação na imprensa  vai ser frustrante. Porque você tem um talento a desenvolver como professor e pesquisador.  Vá fazer pós-graduação com foco em jornalismo na ECA”.


Episódio 2

O Jornalismo Literário ganha espaço na academia

Ed é selecionado por um orientador também jornalista, ganhador de Prêmio Esso de reportagem, doutor em Ciências da Comunicação pela própria Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, fã da grande-reportagem de fôlego e profundidade. Francisco Gaudêncio Torquato do Rêgo, que no futuro maio de 2025 se tornaria Professor Emérito da instituição. Mas naquele passado se distanciando no tempo, a proposta de projeto de dissertação de mestrado do jovem sonhador? À essa altura, é fácil você adivinhar algo muito próximo: uma análise profunda de Realidade, a revista, melhor exemplo contínuo de produção consistente de Jornalismo Literário de alto nível na história da imprensa brasileira.

Mas, por um motivo essencial – que será exposto mais adiante, nesta série –, a dissertação acabou não versando sobre esse veículo icônico da Editora Abril. No passo acadêmico seguinte, contudo, a tese de doutorado – também sob orientação de Torquato –, que teve como foco o livro-reportagem e o Jornalismo Literário, incluiu a análise da modalidade sob o ângulo da arte narrativa de não ficção, em que coube resgatar… Realidade! O templo da prática da modalidade em sua época – assim como, em certa medida, o Jornal da Tarde – no Brasil, equivalente ao papel exercido nos Estados Unidos por The New YorkerAtlantic e Esquire.

A próspera fase então do Jornalismo Literário americano – etapa de rejuvenescimento da modalidade pela exuberância inovadora do chamado novo jornalismo –, de certo modo espontâneo, pode ter influenciado os criadores e alguns dos repórteres/autores da publicação brasileira, assim como por sincronicidade despertou o talento nativo de grandes nomes brasileiros da prática. Pessoas da estirpe de Marcos Faerman – que seria convidado para compor a banca examinadora da tese de Ed —, José Hamilton Ribeiro, Roberto Freire, José Carlos Marão, Narciso Kalili e tantos outros.

Já professor da ECA – em regime de tempo parcial, por um planejamento de carreira em que a colocou em duas vias integradas, a acadêmica, da teoria, ensino e pesquisa, e a prática, da produção jornalística centrada em publicações especializadas e livros —, o jovem doutor pôde dar partida a disciplinas de pós-graduação, assim como orientações de mestres e doutores, realizando também pesquisas, produzindo conhecimento. Ações que abririam, na universidade brasileira, em nível avançado, um espaço próprio acadêmico para o Jornalismo Literário.

Da ECA e da USP, a semente ali plantada e germinada iria se multiplicar e florescer, como influência encorajadora espontânea, em outros territórios do mapa universitário brasileiro. Mas o tom da influência que saía do campus de São Paulo não tocava a música do simples – e digno — legado de uma tradição. Contribuía — e contribui – para a inovação do conhecimento – mais a prática – em JL, com uma dose – modesta que seja – de vanguarda pioneira aqui e no exterior.

Tímido em pessoa, talvez ousado intelectualmente, Ed é do tipo de docente-pesquisador que honra o legado do passado, mas entendeu, desde calouro de pós-graduação, que sua força motriz criadora estava mesmo em produzir conhecimento transformador, fazendo avançar, até onde seu possível talento alcançasse, o estado da arte do seu campo de interesse.

Essa semente interna recebeu uma boa dose de estímulo germinador aplicada por dois dos seus primeiros professores no mestrado. Frederic Michael Litto e Flávio Queiroz de Moraes Júnior, ambos enfatizaram a importância de a universidade gerar conhecimento, disseminando-o como contribuição à sociedade. O primeiro, batendo na tecla do rigor científico clássico nessas ações, o segundo abrindo o leque para se abrigar paradigmas inovadores nelas. Flávio conduzia uma disciplina propondo a aplicação da Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy na comunicação. Daí surgiu a dissertação de mestrado de Ed, centrada num tema que julgou prioritário para se formar uma base conceitual e metodológica fundamental para se poder, no doutorado, então, sim, se fazer uma análise abalizada, moderna, de Realidade e do JL: uma proposta metodológica de aplicação da visão sistêmica no estudo do jornalismo e na prática da atividade jornalística.


Episódio 3

Rigor científico com boa linguagem narrativa

Outra postura que resultou dessa raiz cultural influente?

A produção de trabalhos acadêmicos – dissertações, teses, artigos – em linguagem compatível com o padrão exigido no universo universitário, mas facilmente adaptável para a veiculação para o grande público – especializado ou não – em formato de livro. O rigor científico pode caminhar em sintonia com a boa linguagem narrativa.

Daí, talvez, um dos fatores de explicação da obra Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura – Jornalismo literário, derivada da tese de doutorado de Ed, ter se tornado um livro seminal sobre o tema. Daí também sua dissertação de mestrado ter se transformado num livro didático, originalmente publicado no México – por um tempo adotado em cursos de graduação de pelo menos uma universidade espanhola – e mais recentemente no Brasil: Jornalismo para um novo tempo: o legado da Teoria Geral dos Sistemas.

Desse ninho sistêmico na Escola de Comunicações e Artes (ECA) vai despontando uma nova geração de amantes do Jornalismo Literário que encontram agora uma nova possibilidade de construção de suas carreiras: as de docentes e pesquisadores focados na sua paixão acadêmica. Uma das pessoas que vai se destacar, em sequência ajudando a constituir o Jornalismo Literário como um novo campo de estudos avançados acadêmicos, é a então orientanda de Ed e agora notável docente e pesquisadora, professora da Uniso – Universidade de Sorocaba —, Monica Martinez, que seu mestre no passado e amigo de sempre considera a pessoa mais profícua em produção de conhecimento sobre Jornalismo Literário em atividade na universidade brasileira. Seguindo os passos de Ed e respondendo à sua própria inclinação, Monica aborda o Jornalismo Literário sob uma perspectiva transdisciplinar.

Essa abertura de estrada por Ed, inserindo contribuições de novos paradigmas provenientes de distintos campos do conhecimento, resultou no desenvolvimento da sua proposta conceitual do Jornalismo Literário Avançado. Integrou à base de recursos narrativos do Jornalismo Literário e ao seu propósito de produzir conhecimento de profundidade e compreensão através do storytelling típico da atividade, modelos científicos de vanguarda que, no seu entendimento, ampliam e atualizam a visão leitora da realidade por parte dos escritores / jornalistas / repórteres / autores. Indo além, melhor servem ao desejo de que o Jornalismo Literário produza, preferencialmente, narrativas de processos – e pessoas visionárias – que estão contribuindo para alavancar transformações que elevam o estado de compreensão dos indivíduos e da sociedade sobre ela própria.

Nessa direção, Ed encontrou um apoio paralelo, quando docente na ECA, no trabalho pioneiro da professora Cremilda Medina, ao estabelecer o Núcleo de Epistemologia do Jornalismo, como um think tank de vanguarda sobre a atividade. Participar em alguma medida desse grupo de pesquisa foi um processo inspirador para seus próprios voos.


Episódio 4

A usina criativa do Jornalismo Literário dá frutos

Outra iniciativa, nascida da mesma usina criativa de Jornalismo Literário na Escola de Comunicações e Artes?

Um dia, Ed foi procurado por Celso Falaschi, um colega jornalista – e professor da PUC de Campinas -, orientador de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) de graduação do seu aluno Rodrigo Stucchi, que desejava criar o primeiro site na internet dedicado ao Jornalismo Literário. Nasceu daí o TextoVivo. Em seguida, movido por seu espírito empreendedor, Celso convidou a Ed – pelo nome de referência que já representava – a se juntar a ele e Rodrigo, convidando também a Sérgio Vilas Boas – então orientando do pesquisador da USP – a cofundarem a Academia Brasileira de Jornalismo Literário – ABJL.

Essa ONG, em parceria com distintas instituições de ensino credenciadas, criaria e conduziria por 12 anos consecutivos o primeiro – e único, até o presente – curso de pós-graduação Lato Sensu em Jornalismo Literário do país. A ABJL também promoveu uma primeira – e única – conferência internacional de Jornalismo Literário no país, com a presença de distintos profissionais brasileiros – destaque para Eliane Brum –, mais convidados do exterior, como Mark Kramer, professor-jornalista literário, diretor-fundador do programa de jornalismo narrativo da Fundação Nieman para o Jornalismo, na Universidade de Harvard.

No embalo da ABJL, Ed abriu uma trilha de entrada de pesquisadores brasileiros no cenário internacional em 2009, aproximando-se do mais importante núcleo global transuniversitário especializado no tema, a IAJLS – International Association for Literary Journalism Studies –, criada por docentes-pesquisadores americanos em 2006, hoje com sede nominal na Universidade de British Columbia, no Canadá. Quem preside em 2025 o comitê da entidade responsável pela sua expansão global? Monica Martinez.

Flash forward 2025.

A contemporânea multicrise disruptiva de mudanças que afetam toda a civilização trouxe como um de seus efeitos sobre a grande imprensa a atrofia da produção de matérias de fôlego. Enquanto a mídia jornalística, na sua maior parte, perde esse espaço nobre, outros meios de comunicação estão avançando, com a produção exemplar de narrativas de profundidade calcadas num olhar cristalino sobre a complexidade das vidas humanas. Basta se observar podcasts de qualidade que estão pintando aqui e ali, produções de serviços de streaming – como os documentários de esportes da Netflix, da Amazon Prime Video, da ESPN e outros –, e essa cinebiografia brasileira de excelente nível, que tem no seu DNA traços do puro espírito narrativo de um ótimo perfil – gênero nascido no Jornalismo Literário –, a de Ney Matogrosso, Homem com H.

Está na hora do próprio jornalismo olhar para suas raízes, resgatando seu próprio filho não mais bastardo, o Jornalismo Literário, herdeiro precioso que pode lhe trazer de volta para o desempenho da função nobre que esqueceu, dando um tiro no pé que o empobreceu frente aos outros processos de comunicação de massa que estão ocupando a vanguarda que poderia ser sua. Concorda com esse autor?

E Ed, na sua trajetória pessoal, atual, após a aposentadoria da USP?

Continua ativo, como escritor, levando o que alimentou na teoria à sua prática individual. Produzindo livros – especialmente biográficos, de histórias empresariais e do que denomina narrativas retrato – em estilo de Jornalismo Literário Avançado, focalizando pessoas e casos transformadores que efetivamente estão contribuindo para o mundo se tornar – um pouquinho que seja – melhor.

É impossível você não perceber nessas obras, como nas mais recentes – Edison Tamascia: uma saga transformadora de prosperidade e gente, Viagem ao coração da dor: história de vida(s) e o yoga que a(s) transforma –, ressonâncias dessa ebulição inovadora que do coração da USP atemporal reverbera como gotas inspiradoras pelas águas dinâmicas da vida pulsante em distintas frentes da sociedade.

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